Entro agora na série Música de Coração. Série composta pelos
seguintes artigos:
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Marcelo Tupinambá 1924
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Ernesto Nazaré 1926
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Padre José Maurício 1930
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Vila Lobos versus Vila Lobos (I a VII) 1930
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Henrique Oswald (Obras sinfônicas) 1929
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Henrique Oswald 1929
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Luciano Gallet: Canões Brasileiras 1927
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Lourenço Fernandez ( Sonatina) 1931
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Camargo Guarnieri ( Sonatina) 1929
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J.A. Ferreira Prestes 1931
·
Germana Bittencour 1931
Como homem de seu tempo, Mário de
Andrade nessa série busca fazer reflexões contemplando questões que permeiam
seu projeto de nacionalismo. No âmbito da História da Música, compõe uma narrativa
muito saborosa sobre em Padre José
Maurício. O texto que apresenta
características de crônica, além de cumprir uma função interessada no sentido
de conferir historicidade na trajetória de vida do Padre José Maurício
adequando-a ao processo de vinda da família real portuguesa, sua lida na vida,
positivada pelo desenvolvimento seu trabalho, tem caráter de crítica ao
deflagrar a falta de organização e documentação relativos a história dos
músicos no Brasil. Veja, por exemplo:
Os chefes e muitas nações, entre
as quais prima o Brasil, esquecem com facilidade quem os nobilita. Faz um
século que o padre-mestre morreu. Pelos carinhos isolados de alguns escritores
e um músico, lhe sabemos superficialmente a vida, possuímos dele, impressas, a
Missa de Réquiem e a em Si Bemol. Nada mais. Os pormenores da vida, como os restos
mortais do músico já não é possível mais sabê-los. As obras, na maioria estão
perdidas. O que resta são cópias, detestáveis às vezes, como as que possui o
Conservatório daqui. P.131
Outra característica marcante desta sessão é
notar que os compositores contemplados para os artigos, são todos vivos no
momento em que os artigos são publicados. Noto, portanto, a importância que
Mário de Andrade impute aos artigos na esperança de sensibilizar por meio do
comentário crítico, sempre pautado no exame atencioso e criterioso do material
musical. Sua abordagem é feita de forma concreta, ora por meio de uma única
audição, ora pelo estudo detalhado da partitura. Tem em vista que, empreender
esforços para a crítica musical destinada aos periódicos, nos quais veiculam as
suas colunas, significa escrever de forma ligeira, fácil e de rápida
compreensão. Devo a essa afirmação à comparação de textos dos artigos aqui
presentes frente aos textos mais técnicos como o Ensaio sobre a música brasileira, bem como o livro Aspectos da música brasileira[1].
Isso não o proíbe de deferir comentários sobre o eixo artístico mais amplo,
nem tampouco comentar sua percepção de arte nacional. Observe:
Faz muitos anos que, escutando
amorosamente o despontar da consciência
nacional, cheguei à conclusão de que si esta alguma vez já se manifestou
com eficiente na arte, unicamente o fez pela música. Nós podemos
afirmar que existe hoje música brasileira, a qual, como tudo que é realmente
nativo, nasceu, formou-se e adquiriu suas qualidades raciais no seio do povo
inconsciente. A arte musical brasileira,
si a tivermos um dia, de maneira a poder chamar-se escola, terá
inevitavelmente de auscultar as palpitações rítmicas e ouvir os suspiros
melódicos do povo, para ser nacional e por consequência ter direito
de vida independente no universo. Porque o direito de vida universal só se adquire partindo
do particular para o geral, da raça para a humanidade, conservando aquela
suas características próprias, que são o contingente com que enriquece a
consciência humana. P115.
O problema do particular é
apontado por Lukács como que “constituiu o ponto central organizador do
processo de criação estética, ainda que em suas consequências ultrapasse os
quadros do exame gnosiológico, revela-nos porém, ao mesmo tempo, os trações
específicos essenciais do reflexo estético da realidade”. P.181[2]
A realidade estética como meio de
manifestação orgânica da práxis artística, manifesta-se para Mário por meio de
análise concreta dos compositores na sua autoprodução. Elabora dois artigos que
enaltece a figura de dois compositores que “ de grande valor músico,
tornaram-se notáveis na construção dela (da
música)”: Ernesto Nazaré e Marcelo Tupinambá. P. 115.
Assim, constato o perfil de
crítico e esteta em que Mario de Andrade desenvolve nesta série de artigos.
Aprofunda-se nas particularidades de cada compositor, por meio de artigos
independentes, nos quais por meio de uma análise orgânica da produção musical
do indivíduo, o pesquisador tece suas críticas, faz elogios e a cima de tudo,
busca sensibilizar o tecido social artístico, na sua forma musical, para apreensão
deste projeto de vida. Observe:
O que exalta a música de dança de
Marcelo Tupinambá é a linha melódica. Muito pura e variada. O compositor
encerra nela a indecisão heterogênea da nossa formação racial. Ora tem o
espevitamento do quase branco das cidades, ora a melancolia do nosso interior.
Às vezes é dum fatalismo desesperado, duma saudade imensamente nostálgica, que
faz mal ouvir, como nesse extraordinário Matuto,
canção cearense que atinge aquela tristeza dolorida de certas melodias
russas. P.119
Os artigos escritos sobre Villa –
Lobos atestam uma verticalização muito maior do pesquisador no que diz respeito
ao compositor em relação aos demais compositores. Tece comentários que permeiam
dados biográficos, críticas musicais e análise da atuação de Villa- Lobos como
regente. É certo que o compositor não foi o único a se aventurar na regência
musical, mas note-se a importância que Mário de Andrade dá ao “aventureiro”. A
relação entre Mário de Andrade e Villa Lobos apresenta uma complexa dinâmica de
sociabilidade[3]. No
entanto, quero destacar algumas percepções feitas pelo musicólogo que faz
investidas em comentários sobre a realidade material do músico de orquestra, na
dinâmica relação de seu trabalho, por meio de uma observação de um dos ensaios
Veja:
“Mas é que Vila Lobos é
respeitado como merece e lida com professores de orquestra arregimentados.
Aqui, infelizmente os professores de orquestra ainda não compreenderam o pouco
caso que fazem deles, alguns dos que os manjam. Vivem sendo vítimas de pequenas
decepções, de vaidadinhas ofendidas, e principalmente instrumentos duma porção
de interesses que não são os deles. Ora, os professores de orquestra deviam
pensar que se deixando levar assim na corrente das intrigas e das pretensões
alheias, podem muito bem estar cavando a própria ruína. No ensaio a que
assisti, a má-vontade da parte da orquestra ( má-vontade ou desleixo, o que dá
na mesmoa) era manifesta.” P. 148
A problematização que Mário de Andrade faz à
respeito da realidade do músico que se objetiva na prática de sua função
orquestral é complexa.[4]Não
devo me estender neste aspecto no presente fichamento. Existem outros textos
que adensam a problemática, abordarei em outro momento.
Em Henrique Oswald, Mário de Andrade chama atenção para um aspecto crítico
da personalidade do compositor, imbuído de individualismo. Característica que o
pesquisador vai atacar em todas as suas dimensões de manifestação nas mais
diversas personalidades que se apresenta. Argumentação que noto em diversos dos
seus textos. Para citar alguns Ensaio sobre a música brasileira, Romantismo
musical, O artista e o artesão, Cultura musical. Nesse momento destaco a
seguinte passagem:
Henrique Oswald foi
incontestavelmente mais completo, mais sábio, mais individualistamente
inspirado que Alberto Nepomuceno, por exemplo; porém a sua função histórica não
poderá jamais se comparar com a do autor da Suíte Brasileira. Eis por que eu o
considerava teoricamente um inimigo. Digo mais: um inimigo que eu tinha,
teoricamente , rancor. Porque reconhecendo a grande força e o grande prestígio
dele, eu percebia o formidável aliado que perdíamos, todos quantos
trabalhávamos pela especificação da música nacional. P. 159
A série seguinte é denominada como
Música de Pancadaria. Aqui percebo uma vertente mais politizada de
Mário de Andrade. Engajado nas tensões sociais que o sensibilizam, vejo fartos
momentos nos quais o autor apossa seu “punhal” e trava diversas brigas por meio
da imprensa. Os artigos desta sessão datam de 1927 à 1932, sendo eles :
·
Contra as
Temporadas Líricas ( I a VII) 1928
·
P.R.A.E ( I a V) 1931
·
Luta pelo Sinfonismo ( I a XIV) 1930 à 1931
·
Contra os Comerciantes de Música ( I a VI) 1929
·
O “Bolero” de Ravel 1930
·
O Pai de Xenia 1927
·
Amadorismo Profissional 1929
·
O Ditador e a Música 1932
Ao fazer uma leitura mais apurada
sobre os temas dos artigos, percebo que tratam de questões postas em prova por
meio do próprio Mário de Andrade. Aqui noto o perfil de crítico jornalista mais
apurado. Seguindo uma tendência que se mostra pelo trajeto de sua vida
“jornalística”, observo retrospectivamente que o gérmen da inconformidade nas
questões sociais começou a ficar latente e adquirir certo caráter panfletário
nos artigos jornalísticos que não travam diálogo com manifestações artísticas
do ponto de vista estético. Trazendo uma análise mais verticalizada para uma
realidade material concreta, despindo os véus das redes de sociabilidades dos
grandes mecenatos, do poder público, aqui Mário de Andrade remonta as
estruturas sociais que atuam sob o espectro artístico na mais variadas funções.
Vejo, por exemplo em Traviata, Leocavallo
e Cia (Campanha contra as temporadas líricas). Criticando o caráter efêmero
com que se constroem as temporadas líricas em São Paulo, destinadas sempre a
curta duração e executando sempre os mesmo repertórios, o crítico demonstra de
uma forma geral, de quem são os interesses e para quem são realizados tais
temporadas. Note:
“(...) O povo não irá. Uma entrada de galinheiro custa caro
demais (...). A burguesia, essa irá uma vez, si for, pouco se lhe dando
conhecer o Dão João de Mozart. A aristocracia ( financeira) da cidade, si
fizerem boa propaganda de chiquismo em torno da temporada, essa irá, dirá uma
porção de bobagens, vestirá lindos vestidos e mastigará com delicadezas, boca
fechada, e perfeito conhecimento do uso do garfo, caras e bem regadas ceias
depois do espetáculo. Haverá, eu sei, um ou otrou, uns quinze desgraçados de
artistas, que vivem sonhando escutar essas coisas. Esses, nem que suprimam um
mês de janta, irão ouvir as óperas. E haverá finalmente os professores de
orquestra, arrebanhados aqui, os quase pela rapidez dos ensaios, pela
heterogeneidade do ajuntamento, etc., não poderão nos dar execuções boas”.
P.193
Veja que num breve parágrafo, Mário de Andrade nos da um panorama, mesmo
que sucinto, do complexo espaço de sociabilidade que é o espectro artístico,
mais precisamente no Teatro Municipal de São Paulo. É exatamente nesse caminho
que o ensaísta desenvolve a série de críticas Luta pelo Sinfonismo nas quais tece longa argumentação sobre o
perfil das duas sociedades (orquestrais) que dominam o mercado musical
brasileiro. Aqui, a leitura me permitiu
constatar uma série de questões desenvolvidas no bojo das apresentações
musicais manifestas por Mário de Andrade. Uma grande esfera de questionamentos
urde na lida orgânica com a problemática não só dos artistas, mas com os
empreendimentos que não só tem como função a realização das obras musicais bem
como são responsáveis, segundo Mário, pela cultura musical paulista de uma
forma mais ampla. É claro que questões permeadas pela técnica, acessibilidade
financeira e condições de trabalho são bem trabalhadas nesta série de críticas.
Noto, como as associações e conluios capitalistas inquietam o crítico,
principalmente por levarem sempre a primeira ordem o interesse do
enriquecimento capitalista na execução de tais obras.
Assim, ao adentrar o comentário
estético das obras musicais[5],
o musicólogo faz questão de tecer crítica às obras musicais que parecem
favorecer o “conluio” capitalista, atuando de forma a exercer a abstração do
real, buscar meramente o gozo fácil e impressionar com o objetivo do
enriquecimento por meio da bilheteria. Ao ler O “Bolero” de Ravel, consegui notar essa crítica acentuada à virtuosidade
que esta sempre em pagar tributos a uma burguesia intelectualmente leviana. Seguindo
no mesmo perfil de crítica, noto a convergência da problematização que Mário de
Andrade busca trazer nos artigos O pai de
Xênia em Amadorismo musical. Mergulhado
nas questões sociais enlaçadas nas égides econômicas, o intelectual busca
analisar o espectro do Pianismo[6]
na qual se configura a realidade musical paulista. A virtuosidade pianista se
desvela muito mais por uma condição do espectro burguês do que uma euforia
técnica instrumentista. Sendo esta uma condição imposta pela primeira e não o
contrário. Vejamos, a busca por um padrão de vida material mimetizado com o que
se esperava ser uma elite europeia, fazia com que parte considerável das casas
burguesas tivessem piano. Assim, as condições materiais favoreciam o
aprendizado do instrumento e, por conseguinte, algo que se tornaria um ofício,
antes não projetado, sendo sumariamente um acontecimento quase ao acaso.
Positivado pela prática orgânica, mas muito menos no sentido do planejamento de
se tornar artistas, a prática musical adquire sentido diverso que não só a
formação artística.
[1]
Títulos que abordam a música no espectro onto-imanente.
[2]
Georg Lukács . Introdução a uma estética marxista. Destaco contudo como o
filósofo aponta para a questão imanente do problema do geral ao particular. “
As relações entre a universalidade, a particuladade e a singularidade
constituem, naturalmente , um antiguíssimo problema do pensamento humano. Se
não distinguirmos, pelo menos em certa medida, essas categorias, se não as
delimitarmos reciprocamente e não adquirirmos certo conhecimento da mútuta
superação de uma na outra, ser-nos-á impossível orientarmo-nos na realidade,
ser-nos-á impossível uma práxis, mesmo no sentido mais cotidiano da palavra ”.P
5.
Sobre a questão
do universal, particular e singular ver também Karl Marx- Contribuição à crítica
da economia política.
[3]
Ver o livro de Flávia Toni – Mario de Andrade e Villa- Lobos. Aqui, um estudo
aprofundado dessas tensões e arrefecimentos de ego dos dois personagens ao
longo de suas respectivas trajetórias, tomando como base as correspondências e
artigos de imprensa.
[4]
Ver ensaio Evolução Social da Música- Mário de Andrade
[5] O
que é o sentido nacional na música, nas obras de artes para Mário de Andrade?
[6]
Ver Klaxon 6
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