domingo, 11 de setembro de 2016

Glosas de Música, doce música

O livro é organizado em séries de artigos que o próprio autor nomeia. A primeira série chama-se Música de Cabeça contempla artigos datados de 1924 à 1931. Sob os seguintes títulos:
·         A música no Brasil
·         Crítica do Gregoriano
·         O Amor em Dante e Beethoven
·         Reação contra Wagner
·         Terminologia Musical
·         O Theremim

Esta primeira série ainda contempla uma segunda parte, denominada Folcore. São artigos escritos entre 1928 e 1930 ( O artigo Berimbau não contém data).  São artigos contemplados nessa etapa:
·         O Romance de Veludo
·         Lundu do Escravo
·         Influência Portuguesa nas Rodas Infantis do Brasil
·         Origens do Fado
·         Berimbau
·         Dinamogenias Políticas

Analisando de forma geral, após leitura delicada de cada um deles, é preciso que não esqueçamos a principal característica atribuída pelo próprio autor aos artigos. São escritos de forma rápida, como forma de fornecer uma literatura de apoio, breve e de fácil consulta, presar e desenvolvidas numa breve superficialidade, destinadas a circulação de um dia, honrando a natureza dos periódicos diários, por meio dos quais estes artigos eram veiculados.
Não pretendo debruçar-me na especificidade de cada artigo, aqui muito mais me interessa uma possível identificação e reconstrução da gênese do pensamento de Mário de Andrade pela via de análise destes artigos.
Assim, devo destacar a escrita atenciosa e muito didática expressada pelo autor.  Longe de ser superficial em seu discurso mesmo sabendo da efemeridade em que concebe estes artigos, Mário de Andrade mergulha em argumentações amplamente pautadas por materiais nos quais se utilizou para pesquisa. Noto por meio da leitura dos seus artigos, a frequente citação de fontes diversas. Pensando no cenário cronológico ao que Mário de Andrade os concebe, deve-se refletir sobre tamanha organização de fontes, livros, periódicos nos quais o escritor trafega para a concepção de seu trabalho. Sua biblioteca é vasta e aborda assuntos diversos, a existência de um Fichário Analítico nos evidência a rigorosa disciplina organizacional que o pesquisador tem para com suas fontes. Sabe da importância de organiza-las e deixar sempre de fácil acesso para uma pesquisa ou contribuição futura em que possa contar com determinado material.  Faz-se importante ilustrar a argumentação com a seguinte passagem do artigos Crítica ao Gregoriano

“Otto Keller ( Geschiste der Musik) exprime com felicidade que “enquanto os povos antigos tinham concebido o som em si mesmo, como meio sensitivo perceptível, o Cristianismo o empregou como meio pelo qual a alma comovida se exprime em belas formas sonoras e melodias agradáveis”. Também o rev. H. Frere, no artigo sobre Cantochão ( Grove’s Dictionary of Music), observa que o valor do modo de cantar criado pelos cristãos, está em que ele representa “ a evolução da melodia artística”. Peter Wagner, verificando a extraordinária riqueza de expressão melódica do gregoriano, acha que sob esse ponto-de-vista talvez a gente não encontra nada de comparável a ele na evolução da música”. P.26

Noto aqui uma preocupação por parte do autor em apoiar seus argumentos em fontes de pesquisa que possam solidificar em bases sua argumentação. Devemos pensar também na dificuldade em ter acesso a uma vasta bibliografia interessada no campo da pesquisa musical. Veremos mais adiante, em artigo intitulado Historias Musicais,  o desafio de se confiar na pobre documentação brasileira até então produzida que contemplasse os interesses do musicólogo.
Verticalizando minha leitura mais atenta ao conteúdo dos artigos, em Crítica do Gregoriano,   noto um Mário de Andrade preocupado em atrelar as “conquistas” técnicas do campo musical sempre atreladas ao desenvolvimento social. Seu conceito de Humanidade está construindo em bases de um pensamento cristão. “ O homem-só e concomitantemente humanizado
(aceita o mundo tal qual é, pressupondo uma igualdade no plano ideal) [1], do Cristianismo, ia tender para uma fase nova da evolução musical, a fase melódica, em que os sons não tem mais como base fundamental de união, a relação durativa que entre eles possa existir, mas a relação puramente sonora. Era mudança bem grande na concepção musical e no emprego da música, que em vez de interessar agora pelos efeitos fisiológicos, pelas dinamogenias mais imediatas e fortemente compreensíveis que o ritmo cria, principiava querendo interessar a parte mais recôndita dos nossos afetos e comoções. Enfim, a música deixa de ser sensorial pra se tornar sensitiva”.P 26
De uma forma genérica, M.A. aqui constrói cenário para explicar o ethos musical que sob tutela do Cristianismo, será desenvolvida de forma interessada a articular a palavra “sagrada” aos rituais cristãos. A música passando de um processo anteriormente dinamogênico para se tornar cerebral, no sentido de ser instrumento “proclamador” das palavras doutrinárias.
Nesse sentido é que o Canto Gregoriano carrega sua maior negatividade, segundo M.A. pois ao seguir sempre as pretensas regras fraseológicas no intento de mover mais claramente os afetos humanos, a música acaba por ser submetida a uma contingente de hierarquias que a deixam desinteressada no aspecto de ser uma arte de obra pura e em franco desenvolvimento.
Os aspecto Dinamogênico reaparece num artigo seguinte denominado Dinamogenias Políticas.
Aqui o escritor nos traz uma série de argumentos importantes que vai nos descrever uma gênese de pensamento envolvida amplamente nas questões sociais do período e também como forma de comunicar astutamente seu projeto “nacionalista” em vias mais gerias como a dos periódicos. O artigo de 1930 ilustra o calor das manifestações sociais frente a Getúlio Vargas. Mário de Andrade se utiliza de dos eventos para colher documentos importantes relativos as dinamogenias políticas atreladas ao comportamento que se manifesta em música.
Ao tecer importantes considerações do caráter socializador da música, o pesquisador aponta: “ É num momento desses que o povo, para esquecer que é feito de indivíduos independentes uns dos outros, generaliza os hinos, as marchas, as cantigas, as dinamogenias rítmicas, que abafam o individualismo e despertam o movimento e, consequentemente o sentir em comum.[2]
A supressão das hierarquias sociais por meio da música, contemplando no tecido orgânico indivíduos de vasta gama social é algo que Mário de Andrade apreende dos movimentos analisados.
Noto em argumentação posterior, esta de cunho muito mais técnico, uma preocupação grande do autor em mostrar que as síncopas não são, em primeiro plano, o ritmo latente na boca do povo quando da manifestação musical. Deve-se questionar então, para quem Mário de Andrade escreve esse tipo de argumento.
Se pensarmos nos tempos em que escreve, as colunas de crítica musicais eram a principal plataforma para sensibilizar os artistas. A comunicação direta nem sempre era a mais eficiente, dado que nem todos os artistas se correspondiam e se dedicavam a correspondência como Mário de Andrade gostaria. Assim, se utilizada da plataforma de imprensa para relembrar e tecer críticas sobre os aspectos estéticos da música brasileira. Ao notar um exagerado uso de sincopas no ato de compor música, Mário de Andrade acusa os compositores de pouca preocupação em se debruçar mais intensamente nas questões sociais que vão construir as bases materiais estéticas para a música brasileira. Nesse sentido critica que “ Restringir a manifestação musical brasileira ao remelexo do Maxixe[3], só porque é gostos, é antes de mais nada cegueira. Resultado: A nossa música erudita de caráter nacional, esta se tornando duma monotonia rítmica obcecante”. P 107.





[1] Grifo meu
[2] Referências importantes – O canto dos Afetos, Chasin, Ibaney.
A mais alemã das artes – Potter, Pamela.
[3] Gênero musical rico em síncopas.

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