O livro é organizado em séries de artigos que o próprio
autor nomeia. A primeira série chama-se Música
de Cabeça contempla artigos datados de 1924 à 1931. Sob os seguintes
títulos:
·
A música no Brasil
·
Crítica do Gregoriano
·
O Amor em Dante e Beethoven
·
Reação contra Wagner
·
Terminologia Musical
·
O Theremim
Esta primeira série ainda contempla uma segunda parte,
denominada Folcore. São artigos
escritos entre 1928 e 1930 ( O artigo Berimbau não contém data). São artigos contemplados nessa etapa:
·
O Romance de Veludo
·
Lundu do Escravo
·
Influência Portuguesa nas Rodas Infantis do
Brasil
·
Origens do Fado
·
Berimbau
·
Dinamogenias Políticas
Analisando de forma geral, após leitura delicada de cada um
deles, é preciso que não esqueçamos a principal característica atribuída pelo
próprio autor aos artigos. São escritos de forma rápida, como forma de fornecer uma literatura de apoio, breve e de
fácil consulta, presar e desenvolvidas numa breve superficialidade, destinadas
a circulação de um dia, honrando a natureza dos periódicos diários, por meio
dos quais estes artigos eram veiculados.
Não pretendo debruçar-me na especificidade de cada artigo,
aqui muito mais me interessa uma possível identificação e reconstrução da
gênese do pensamento de Mário de Andrade pela via de análise destes artigos.
Assim, devo destacar a escrita atenciosa e muito didática
expressada pelo autor. Longe de ser
superficial em seu discurso mesmo sabendo da efemeridade em que concebe estes
artigos, Mário de Andrade mergulha em argumentações amplamente pautadas por
materiais nos quais se utilizou para pesquisa. Noto por meio da leitura dos
seus artigos, a frequente citação de fontes diversas. Pensando no cenário
cronológico ao que Mário de Andrade os concebe, deve-se refletir sobre tamanha
organização de fontes, livros, periódicos nos quais o escritor trafega para a
concepção de seu trabalho. Sua biblioteca é vasta e aborda assuntos diversos, a
existência de um Fichário Analítico
nos evidência a rigorosa disciplina organizacional que o pesquisador tem para
com suas fontes. Sabe da importância de organiza-las e deixar sempre de fácil
acesso para uma pesquisa ou contribuição futura em que possa contar com
determinado material. Faz-se importante
ilustrar a argumentação com a seguinte passagem do artigos Crítica ao
Gregoriano
“Otto Keller ( Geschiste der Musik) exprime com felicidade
que “enquanto os povos antigos tinham concebido o som em si mesmo, como meio
sensitivo perceptível, o Cristianismo o empregou como meio pelo qual a alma
comovida se exprime em belas formas sonoras e melodias agradáveis”. Também o rev.
H. Frere, no artigo sobre Cantochão ( Grove’s Dictionary of Music), observa que
o valor do modo de cantar criado pelos cristãos, está em que ele representa “ a
evolução da melodia artística”. Peter Wagner, verificando a extraordinária
riqueza de expressão melódica do gregoriano, acha que sob esse ponto-de-vista
talvez a gente não encontra nada de comparável a ele na evolução da música”.
P.26
Noto aqui uma preocupação por parte do autor em apoiar seus
argumentos em fontes de pesquisa que possam solidificar em bases sua argumentação.
Devemos pensar também na dificuldade em ter acesso a uma vasta bibliografia
interessada no campo da pesquisa musical. Veremos mais adiante, em artigo
intitulado Historias Musicais, o desafio de se confiar na pobre documentação
brasileira até então produzida que contemplasse os interesses do musicólogo.
Verticalizando minha leitura mais atenta ao conteúdo dos
artigos, em Crítica do Gregoriano, noto um Mário de Andrade preocupado em atrelar
as “conquistas” técnicas do campo musical sempre atreladas ao desenvolvimento
social. Seu conceito de Humanidade
está construindo em bases de um pensamento cristão. “ O homem-só e
concomitantemente humanizado
(aceita o mundo tal
qual é, pressupondo uma igualdade no plano ideal) [1],
do Cristianismo, ia tender para uma fase nova da evolução musical, a fase
melódica, em que os sons não tem mais como base fundamental de união, a relação
durativa que entre eles possa existir, mas a relação puramente sonora. Era
mudança bem grande na concepção musical e no emprego da música, que em vez de
interessar agora pelos efeitos fisiológicos, pelas dinamogenias mais
imediatas e fortemente compreensíveis que o ritmo cria, principiava querendo
interessar a parte mais recôndita dos nossos afetos e comoções. Enfim, a música
deixa de ser sensorial pra se tornar sensitiva”.P 26
De uma forma genérica, M.A. aqui constrói cenário para
explicar o ethos musical que sob
tutela do Cristianismo, será desenvolvida de forma interessada a articular a palavra “sagrada” aos rituais cristãos. A
música passando de um processo anteriormente dinamogênico para se tornar cerebral, no sentido de ser instrumento
“proclamador” das palavras doutrinárias.
Nesse sentido é que o Canto Gregoriano carrega sua maior
negatividade, segundo M.A. pois ao seguir sempre as pretensas regras
fraseológicas no intento de mover mais claramente os afetos humanos, a música
acaba por ser submetida a uma contingente de hierarquias que a deixam desinteressada no aspecto de ser uma arte
de obra pura e em franco desenvolvimento.
Os aspecto Dinamogênico reaparece num artigo seguinte
denominado Dinamogenias Políticas.
Aqui o escritor nos traz uma série de argumentos importantes
que vai nos descrever uma gênese de pensamento envolvida amplamente nas
questões sociais do período e também como forma de comunicar astutamente seu
projeto “nacionalista” em vias mais gerias como a dos periódicos. O artigo de
1930 ilustra o calor das manifestações sociais frente a Getúlio Vargas. Mário
de Andrade se utiliza de dos eventos para colher documentos importantes
relativos as dinamogenias políticas atreladas ao comportamento que se manifesta
em música.
Ao tecer importantes considerações do caráter socializador
da música, o pesquisador aponta: “ É num momento desses que o povo, para
esquecer que é feito de indivíduos independentes uns dos outros, generaliza os
hinos, as marchas, as cantigas, as dinamogenias rítmicas, que abafam o individualismo
e despertam o movimento e, consequentemente o sentir em comum.[2]
A supressão das hierarquias sociais por meio da música,
contemplando no tecido orgânico indivíduos de vasta gama social é algo que
Mário de Andrade apreende dos movimentos analisados.
Noto em argumentação posterior, esta de cunho muito mais
técnico, uma preocupação grande do autor em mostrar que as síncopas não são, em
primeiro plano, o ritmo latente na boca do povo quando da manifestação musical.
Deve-se questionar então, para quem Mário de Andrade escreve esse tipo de
argumento.
Se pensarmos nos tempos em que escreve, as colunas de
crítica musicais eram a principal plataforma para sensibilizar os artistas. A
comunicação direta nem sempre era a mais eficiente, dado que nem todos os
artistas se correspondiam e se dedicavam a correspondência como Mário de
Andrade gostaria. Assim, se utilizada da plataforma de imprensa para relembrar
e tecer críticas sobre os aspectos estéticos da música brasileira. Ao notar um
exagerado uso de sincopas no ato de compor música, Mário de Andrade acusa os
compositores de pouca preocupação em se debruçar mais intensamente nas questões
sociais que vão construir as bases materiais estéticas para a música
brasileira. Nesse sentido critica que “ Restringir a manifestação musical brasileira
ao remelexo do Maxixe[3],
só porque é gostos, é antes de mais nada cegueira. Resultado: A nossa música
erudita de caráter nacional, esta se tornando duma monotonia rítmica obcecante”.
P 107.
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