quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Interlúdio

Omnização - ação que torna homens e mulheres ,de fato, humanos. Sua autoprodução por meio do trabalho confere, a si mesmo, seu principal atributo socio-metabólico que os diferencia dos outros animais. Portanto, a essência humana é o trabalho. Trabalho este que quando cooptado numa sociedade capitalista, é conduzido por uma forma alienada e estranhada de existência. Alienada pois, homens e mulheres não detém os meios de produção para que lhe são necessários para exercer o seu trabalho. Produzem, mas não detém aquilo que produz. Seu trabalho é suprimido pelo produto final ( trabalho morto) que se torna uma entidade autônoma com um determinado valor de troca que só poderá ser adquirido pela troca entre as poucas horas remuneradas pelo seu trabalho, devolvendo-as para as fontes primárias da expropriação e exploração, o capitalista.
Estranhada por não identificar no produto final, o seu trabalho, portanto a si mesmo. Transfere aquilo que é seu, humano, produto de sua ominização, para uma entidade material, sem vida, porém fruto de sua criação. Estranhamento, no entanto, se aplica as condições genéricas da vida humana, não necessariamente atreladas ao ponto de vista das relações econômicas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Glosas


Entro agora na série Música de Coração. Série composta pelos seguintes artigos:
·         Marcelo Tupinambá 1924
·         Ernesto Nazaré 1926
·         Padre José Maurício 1930
·         Vila Lobos versus Vila Lobos (I a VII) 1930
·         Henrique Oswald (Obras sinfônicas) 1929
·         Henrique Oswald 1929
·         Luciano Gallet: Canões Brasileiras 1927
·         Lourenço Fernandez ( Sonatina) 1931
·         Camargo Guarnieri ( Sonatina) 1929
·         J.A. Ferreira Prestes 1931
·         Germana Bittencour 1931

Como homem de seu tempo, Mário de Andrade nessa série busca fazer reflexões contemplando questões que permeiam seu projeto de nacionalismo. No âmbito da História da Música, compõe uma narrativa muito saborosa sobre em Padre José Maurício.  O texto que apresenta características de crônica, além de cumprir uma função interessada no sentido de conferir historicidade na trajetória de vida do Padre José Maurício adequando-a ao processo de vinda da família real portuguesa, sua lida na vida, positivada pelo desenvolvimento seu trabalho, tem caráter de crítica ao deflagrar a falta de organização e documentação relativos a história dos músicos no Brasil. Veja, por exemplo:

Os chefes e muitas nações, entre as quais prima o Brasil, esquecem com facilidade quem os nobilita. Faz um século que o padre-mestre morreu. Pelos carinhos isolados de alguns escritores e um músico, lhe sabemos superficialmente a vida, possuímos dele, impressas, a Missa de Réquiem e a em Si Bemol. Nada mais. Os pormenores da vida, como os restos mortais do músico já não é possível mais sabê-los. As obras, na maioria estão perdidas. O que resta são cópias, detestáveis às vezes, como as que possui o Conservatório daqui. P.131

 Outra característica marcante desta sessão é notar que os compositores contemplados para os artigos, são todos vivos no momento em que os artigos são publicados. Noto, portanto, a importância que Mário de Andrade impute aos artigos na esperança de sensibilizar por meio do comentário crítico, sempre pautado no exame atencioso e criterioso do material musical. Sua abordagem é feita de forma concreta, ora por meio de uma única audição, ora pelo estudo detalhado da partitura. Tem em vista que, empreender esforços para a crítica musical destinada aos periódicos, nos quais veiculam as suas colunas, significa escrever de forma ligeira, fácil e de rápida compreensão. Devo a essa afirmação à comparação de textos dos artigos aqui presentes frente aos textos mais técnicos como o Ensaio sobre a música brasileira, bem como o livro Aspectos da música brasileira[1]. Isso não o proíbe de deferir comentários sobre o eixo artístico mais amplo, nem tampouco comentar sua percepção de arte nacional. Observe:
Faz muitos anos que, escutando amorosamente o despontar da consciência nacional, cheguei à conclusão de que si esta alguma vez já se manifestou com eficiente na arte, unicamente o fez pela música. Nós podemos afirmar que existe hoje música brasileira, a qual, como tudo que é realmente nativo, nasceu, formou-se e adquiriu suas qualidades raciais no seio do povo inconsciente. A arte musical brasileira, si a tivermos um dia, de maneira a poder chamar-se escola, terá inevitavelmente de auscultar as palpitações rítmicas e ouvir os suspiros melódicos do povo, para ser nacional e por consequência ter direito de vida independente no universo. Porque o direito de vida universal só se adquire partindo do particular para o geral, da raça para a humanidade, conservando aquela suas características próprias, que são o contingente com que enriquece a consciência humana. P115.

O problema do particular é apontado por Lukács como que “constituiu o ponto central organizador do processo de criação estética, ainda que em suas consequências ultrapasse os quadros do exame gnosiológico, revela-nos porém, ao mesmo tempo, os trações específicos essenciais do reflexo estético da realidade”. P.181[2]
A realidade estética como meio de manifestação orgânica da práxis artística, manifesta-se para Mário por meio de análise concreta dos compositores na sua autoprodução. Elabora dois artigos que enaltece a figura de dois compositores que “ de grande valor músico, tornaram-se notáveis na construção dela (da música)”: Ernesto Nazaré e Marcelo Tupinambá. P. 115.
Assim, constato o perfil de crítico e esteta em que Mario de Andrade desenvolve nesta série de artigos. Aprofunda-se nas particularidades de cada compositor, por meio de artigos independentes, nos quais por meio de uma análise orgânica da produção musical do indivíduo, o pesquisador tece suas críticas, faz elogios e a cima de tudo, busca sensibilizar o tecido social artístico, na sua forma musical, para apreensão deste projeto de vida. Observe:

O que exalta a música de dança de Marcelo Tupinambá é a linha melódica. Muito pura e variada. O compositor encerra nela a indecisão heterogênea da nossa formação racial. Ora tem o espevitamento do quase branco das cidades, ora a melancolia do nosso interior. Às vezes é dum fatalismo desesperado, duma saudade imensamente nostálgica, que faz mal ouvir, como nesse extraordinário Matuto, canção cearense que atinge aquela tristeza dolorida de certas melodias russas. P.119

Os artigos escritos sobre Villa – Lobos atestam uma verticalização muito maior do pesquisador no que diz respeito ao compositor em relação aos demais compositores. Tece comentários que permeiam dados biográficos, críticas musicais e análise da atuação de Villa- Lobos como regente. É certo que o compositor não foi o único a se aventurar na regência musical, mas note-se a importância que Mário de Andrade dá ao “aventureiro”. A relação entre Mário de Andrade e Villa Lobos apresenta uma complexa dinâmica de sociabilidade[3]. No entanto, quero destacar algumas percepções feitas pelo musicólogo que faz investidas em comentários sobre a realidade material do músico de orquestra, na dinâmica relação de seu trabalho, por meio de uma observação de um dos ensaios Veja:
“Mas é que Vila Lobos é respeitado como merece e lida com professores de orquestra arregimentados. Aqui, infelizmente os professores de orquestra ainda não compreenderam o pouco caso que fazem deles, alguns dos que os manjam. Vivem sendo vítimas de pequenas decepções, de vaidadinhas ofendidas, e principalmente instrumentos duma porção de interesses que não são os deles. Ora, os professores de orquestra deviam pensar que se deixando levar assim na corrente das intrigas e das pretensões alheias, podem muito bem estar cavando a própria ruína. No ensaio a que assisti, a má-vontade da parte da orquestra ( má-vontade ou desleixo, o que dá na mesmoa) era manifesta.” P. 148

 A problematização que Mário de Andrade faz à respeito da realidade do músico que se objetiva na prática de sua função orquestral é complexa.[4]Não devo me estender neste aspecto no presente fichamento. Existem outros textos que adensam a problemática, abordarei em outro momento.
Em Henrique Oswald, Mário de Andrade chama atenção para um aspecto crítico da personalidade do compositor, imbuído de individualismo. Característica que o pesquisador vai atacar em todas as suas dimensões de manifestação nas mais diversas personalidades que se apresenta. Argumentação que noto em diversos dos seus textos. Para citar alguns  Ensaio sobre a música brasileira, Romantismo musical, O artista e o artesão, Cultura musical. Nesse momento destaco a seguinte passagem:
Henrique Oswald foi incontestavelmente mais completo, mais sábio, mais individualistamente inspirado que Alberto Nepomuceno, por exemplo; porém a sua função histórica não poderá jamais se comparar com a do autor da Suíte Brasileira. Eis por que eu o considerava teoricamente um inimigo. Digo mais: um inimigo que eu tinha, teoricamente , rancor. Porque reconhecendo a grande força e o grande prestígio dele, eu percebia o formidável aliado que perdíamos, todos quantos trabalhávamos pela especificação da música nacional. P. 159

A série seguinte é denominada como Música de Pancadaria.  Aqui percebo uma vertente mais politizada de Mário de Andrade. Engajado nas tensões sociais que o sensibilizam, vejo fartos momentos nos quais o autor apossa seu “punhal” e trava diversas brigas por meio da imprensa. Os artigos desta sessão datam de 1927 à 1932, sendo eles :
·          Contra as Temporadas Líricas ( I a VII) 1928
·         P.R.A.E ( I a V) 1931
·         Luta pelo Sinfonismo ( I a XIV) 1930 à 1931
·         Contra os Comerciantes de Música ( I a VI) 1929
·         O “Bolero” de Ravel 1930
·         O Pai de Xenia 1927
·         Amadorismo Profissional 1929
·         O Ditador e a Música 1932
Ao fazer uma leitura mais apurada sobre os temas dos artigos, percebo que tratam de questões postas em prova por meio do próprio Mário de Andrade. Aqui noto o perfil de crítico jornalista mais apurado. Seguindo uma tendência que se mostra pelo trajeto de sua vida “jornalística”, observo retrospectivamente que o gérmen da inconformidade nas questões sociais começou a ficar latente e adquirir certo caráter panfletário nos artigos jornalísticos que não travam diálogo com manifestações artísticas do ponto de vista estético. Trazendo uma análise mais verticalizada para uma realidade material concreta, despindo os véus das redes de sociabilidades dos grandes mecenatos, do poder público, aqui Mário de Andrade remonta as estruturas sociais que atuam sob o espectro artístico na mais variadas funções. Vejo, por exemplo em Traviata, Leocavallo e Cia (Campanha contra as temporadas líricas). Criticando o caráter efêmero com que se constroem as temporadas líricas em São Paulo, destinadas sempre a curta duração e executando sempre os mesmo repertórios, o crítico demonstra de uma forma geral, de quem são os interesses e para quem são realizados tais temporadas. Note:
“(...) O povo não irá. Uma entrada de galinheiro custa caro demais (...). A burguesia, essa irá uma vez, si for, pouco se lhe dando conhecer o Dão João de Mozart. A aristocracia ( financeira) da cidade, si fizerem boa propaganda de chiquismo em torno da temporada, essa irá, dirá uma porção de bobagens, vestirá lindos vestidos e mastigará com delicadezas, boca fechada, e perfeito conhecimento do uso do garfo, caras e bem regadas ceias depois do espetáculo. Haverá, eu sei, um ou otrou, uns quinze desgraçados de artistas, que vivem sonhando escutar essas coisas. Esses, nem que suprimam um mês de janta, irão ouvir as óperas. E haverá finalmente os professores de orquestra, arrebanhados aqui, os quase pela rapidez dos ensaios, pela heterogeneidade do ajuntamento, etc., não poderão nos dar execuções boas”. P.193

  Veja que num breve parágrafo, Mário de Andrade nos da um panorama, mesmo que sucinto, do complexo espaço de sociabilidade que é o espectro artístico, mais precisamente no Teatro Municipal de São Paulo. É exatamente nesse caminho que o ensaísta desenvolve a série de críticas Luta pelo Sinfonismo nas quais tece longa argumentação sobre o perfil das duas sociedades (orquestrais) que dominam o mercado musical brasileiro.  Aqui, a leitura me permitiu constatar uma série de questões desenvolvidas no bojo das apresentações musicais manifestas por Mário de Andrade. Uma grande esfera de questionamentos urde na lida orgânica com a problemática não só dos artistas, mas com os empreendimentos que não só tem como função a realização das obras musicais bem como são responsáveis, segundo Mário, pela cultura musical paulista de uma forma mais ampla. É claro que questões permeadas pela técnica, acessibilidade financeira e condições de trabalho são bem trabalhadas nesta série de críticas. Noto, como as associações e conluios capitalistas inquietam o crítico, principalmente por levarem sempre a primeira ordem o interesse do enriquecimento capitalista na execução de tais obras.
Assim, ao adentrar o comentário estético das obras musicais[5], o musicólogo faz questão de tecer crítica às obras musicais que parecem favorecer o “conluio” capitalista, atuando de forma a exercer a abstração do real, buscar meramente o gozo fácil e impressionar com o objetivo do enriquecimento por meio da bilheteria. Ao ler O “Bolero” de Ravel, consegui notar essa crítica acentuada à virtuosidade que esta sempre em pagar tributos a uma burguesia intelectualmente leviana. Seguindo no mesmo perfil de crítica, noto a convergência da problematização que Mário de Andrade busca trazer nos artigos O pai de Xênia em Amadorismo musical. Mergulhado nas questões sociais enlaçadas nas égides econômicas, o intelectual busca analisar o espectro do Pianismo[6] na qual se configura a realidade musical paulista. A virtuosidade pianista se desvela muito mais por uma condição do espectro burguês do que uma euforia técnica instrumentista. Sendo esta uma condição imposta pela primeira e não o contrário. Vejamos, a busca por um padrão de vida material mimetizado com o que se esperava ser uma elite europeia, fazia com que parte considerável das casas burguesas tivessem piano. Assim, as condições materiais favoreciam o aprendizado do instrumento e, por conseguinte, algo que se tornaria um ofício, antes não projetado, sendo sumariamente um acontecimento quase ao acaso. Positivado pela prática orgânica, mas muito menos no sentido do planejamento de se tornar artistas, a prática musical adquire sentido diverso que não só a formação artística.



[1] Títulos que abordam a música no espectro onto-imanente.
[2] Georg Lukács . Introdução a uma estética marxista. Destaco contudo como o filósofo aponta para a questão imanente do problema do geral ao particular. “ As relações entre a universalidade, a particuladade e a singularidade constituem, naturalmente , um antiguíssimo problema do pensamento humano. Se não distinguirmos, pelo menos em certa medida, essas categorias, se não as delimitarmos reciprocamente e não adquirirmos certo conhecimento da mútuta superação de uma na outra, ser-nos-á impossível orientarmo-nos na realidade, ser-nos-á impossível uma práxis, mesmo no sentido mais cotidiano da palavra ”.P 5.
 Sobre a questão do universal, particular e singular ver também Karl Marx- Contribuição à crítica da economia política.
[3] Ver o livro de Flávia Toni – Mario de Andrade e Villa- Lobos. Aqui, um estudo aprofundado dessas tensões e arrefecimentos de ego dos dois personagens ao longo de suas respectivas trajetórias, tomando como base as correspondências e artigos de imprensa.
[4] Ver ensaio Evolução Social da Música- Mário de Andrade
[5] O que é o sentido nacional na música, nas obras de artes para Mário de Andrade?
[6] Ver Klaxon 6

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Continuação

Mário de Andrade é sistemático. Busca sempre um processo de imanência história nas  categorias artísticas e sociais que observa. Na partícula Essência Anônima do Gregoriano ( Crítica ao gregoriano), o pesquisador esboça uma linha de raciocínio que busca explicar de forma mais clara a permanência das músicas populares, por meio de suas características ontológicas. Veja-se a seguinte passagem:

O que faz a intensidade concentrada da arte popular é a maneira com que as fórmulas melódicas e rítmicas se vão generalizando[1], perdendo tudo o que é individual, ao mesmo tempo que concentram em sínteses inconscientes as qualidades, os caracteres duma raça ou povo. A gente sabe que uma melodia popular foi criada por um individuo. Porém esse individuo, capaz de criar uma forma sonora que iria ser de todos, já tinha de ser tão pobre de sua individualidade que pudesse tornar assim, menos que um homem, um humano. P.32

Destaco neste trecho dois aspectos que são fundamentais no pensamento artístico de Mário de Andrade. Compreendo que ao assinalar que um indivíduo faz música popular, este a faz de forma a concatenar psicologicamente a cultura de seu povo em forma de música. Isso é o que denomina as sínteses inconscientes. Por outro lado, traz um outro ponto que é chave em sua crítica já na obra de maturidade que é o conceito de individualismo. Quando flagrante a criação musical atrelada à cultura popular, tem-se o que Mário de Andrade afirma como um artista do povo e a sua forma mais clara de apreensão deste conceitos é a permanência de sua música popular, pelas gerações que se seguem. Quando imbuído de anseios egocêntricos, o artista deixa de prestar a necessidade de que se faz ser artista.
Desta forma, fazendo uma digressão de forma mais ampla para o sentido interessado de arte na qual Mário de Andrade determina. e isso notamos deste a obra imatura até sua morte. A arte interessada para M.A é o trabalho com o objetivo de mover, impactar, formar e questionar uma sociedade. O pesquisador é por várias vezes categórico em afirmar a necessidade de o artista sacrificar o belo ( Um fim para arte que começa a despontar no Iluminismo, segundo próprio M.A, quando a arte se torna desinteressadamente burguesa) para então voltar as questões onto-imanentes da produção de sua arte. Importante notar que Mário de Andrade positiva-se enquanto sujeito autoproducente de duas formas características, não necessariamente distintas. Quando escreve poesia, contos, crônicas este exerce o trabalho de artística, positiva-se por meio de produção de criação intelectual. A outra via em que devemos compreender ontologicamente o trabalho de Mário de Andrade é sua postura de professor. Como trabalhador orgânico, M.A é professor do Conservatório Dramático Musical desde 1917. Exerce intensa função como catedrático de História da Música. Assim, quando não um artista producente, que se positiva pelo meio de sua criação artística por meio de produção artística literária, o escritor é um ensaísta, crítico e tutor. Noto pela vasta documentação epistolar[2], os ensaios publicados ( principalmente os musicais) e a vasta crítica que deste 1917, pelo jornal A Gazeta, Mário de Andrade atua intensamente, até o fim de sua vida, migrando por diversos periódicos dos quais exerce sua função orgânica publicando em colunas musicais.
Assim, apoiando o comentário à respeito do pesquisador que se utiliza da sua coluna como uma plataforma de lançar suas ideias e projetos pedagógicos, M.A não poupa críticas em suas concepções a respeito do desenvolvimento imanente musical em escritos voltados para o estudo da História da Música. Vejo em Reação contra Wagner, um artigo preocupado em situar a complexa relação egocêntrica que o artista romântico desempenha com a sua arte, no caso a produção musical, o autor nos aponta sua inquietação com o fenômeno de música descritiva[3].

A música perdera aquelas prerrogativas, tão salientes no período setecentista, de valer por si mesma, liberta da literatura[4], para se tornar de novo ancila do pensamento e do drama da vida. P.50

 Noto a crítica ao movimento retrógrado que os compositores, sobretudo Richard Wagner, busca levar as últimas consequências o espectro da musical tonal, comentado por muitos musicólogos como a última etapa antes da superação da tonalidade. Mário de Andrade busca neste artigo comentar que a necessidade de evolução humana, na qual se positiva por meio de seu trabalho, pela apreensão de novas técnicas em que se sujeita, nem sempre esta atrelada a criar novas teorias, veja:

Os homens, nesta questão, são levados pela necessidade natural do espírito, em perene evolução; e o mérito de alguns deles não eta em inventarem as teorias reacionárias, sinão em realizarem o espírito reacionário, mais ou menso unânime, com maior constância, maior eficácia e diga-se o termo, maior genialidade. P 51

Discursa sobre a questão reacionária, posto que neste sentido o romantismo volta ao padrões renascentistas de tentar promover uma mimese do que é real, tentando aproximar elementos da vida orgânica. O compositor usa literatura, dança e imagens para atribuir significado a sua linguagem musical. Nesse sentido, Mário afirma que pode-se fazer música com algum contribuição a concepção interessada de arte, deste que o compositor que a escreva não esteja necessariamente preocupado em produzir algo novo. Nesse sentido, toma as figuras de Brahms, Cesar Franck e Verdi para apontar que não levaram a superação da estética romântica que encontra seu ápice em Wagner, mas desenvolveram densamente a concepção de música pura, seguindo um padrão de adensamento do desenvolvimento musical no sentido ontológico, pela intensificação na linguagem cromática e em demais atributos ontológicos musicais ( intenso desenvolvimento de polifonia contrapontística, por exemplo) sem recorrer ao “falseamento” artístico de atrelar uma submissão da linguagem musical a qualquer outra que possa ser tida como mais inteligível.
Observando desta forma o aspecto da linguagem, que se urde tal qual “a consciência, do carecimento, da necessidade de intercâmbio com outros homens.”[5]Assim, a linguagem musical enquanto instância concreta da consciência humana é fundamental ponto de análise. A propositura estético-musical idealizada por Mário de Andrade pode representar um estratégico posicionamento na qual se utiliza a linguagem musical “dominante”, construída nas bases da “colonização artística europeia”, para que o artista tenha apenas que “(...) dar pros elementos já existentes uma transposição erudita que faça da música popular, música artística(...)[6]” .
Em Terminologia Musical, o musicólogo problematiza algo extremante significativo em sua obra e vivamente recorrente que é a preocupação com o estabelecimento de um padrão nos termos musicais. Sua preocupação didática é extensiva, incluindo tais inquietações a respeito do vocabulário musical. A seguinte passagem é substancialmente significativa:

A fala portuguesa que os tempos da Colônia nos herdaram é relativamente pobre em terminologia artística geral. Tao pobre em termso de arte quanto rica em termos náuticos. As artes no geral evoluíram sem a colaboração de Portugal; a musicologia luso-brasileira é paupérrima, das mais pobres do universo. Isso faz com que tudo quanto lemos e sabemos a respeito de artes, seja colhido em livros de outras línguas, especialmente franceses. Só muito recente, e benecifcamente, a língua alemã esta entrnando em concorre^cnai com a francesa. Ora quando a gente escreve sobre qualquer arte, em língua nacional, a todo momento esbarra em vácuos vocabulares penosíssimos. P 56

Noto pelo fragmento dois aspectos que merecem destaque. Pela percepção viva e material, Mário de Andrade levanta uma questão sensível sobre a bibliografia para consulta. Precisa-se ter em mente que, quando o autor manifesta notas de repúdio ou a escassez de determinadas fontes, faz parte de seu projeto política uma sensibilização real por parte de quem o lê. Nesse sentido, ao trazer o espectro analisando para o plano ontológico da vida orgânica, o professor esta claramente manifestando a ausência de uma preocupação musicológica do passado e também dos colonos em ter dado uma importância maior para os estudos das fontes musicais. Para fundamentar suas aulas no conservatório, Mário de Andrade não goza de vasta bibliografia, o que o impossibilita de muitas vezes preparar um material didático com maior rigor[7]. Nesse sentido, consequentemente, encaminha a crítica da importância de se desenvolver uma terminologia conscientemente nacional. Até porquê, preocupado com o processo história de formação de conceitos atribuídos as palavras do idioma, se mostra também muito inquieta com o uso deliberado de vocábulos, sem existir uma plena consciência do seu significado. Mário de Andrade atesta suas percepções pautadas em vivências concretas de sua experiência, o que é um importante fator de análise sob o ponto de vista da pesquisa.
A sessão Folclore, contida como fragmento da primeira série de artigos, destaca-se pelo substrato orgânico colhido pelo ensaísta como forma de realizar sua pesquisa. Realiza um verdadeiro trabalho arqueológico das fontes orais, buscando compreender e problematizar as idiossincrasias na onto-imanência do substrato musical. Desta maneira, afirma que por serem as peças “ compridas por demais pra ser fácil a transmissão oral de texto e música” ( P.79) as músicas sofriam deveras alterações. Sejam pela parte rítmica ou mesmo pela melodia. Densamente envolvido na sistematização de criação artística, Mário de Andrade aponta uma nova preocupação, dessa vez relativa a própria deficiência da grafia musical. Veja:

“... liberdade prosódica, um rubato de expressão oratória, impossível da gente registrar com os valores tão deficiente da grafia musical. Me parece que os nossos compositores deviam de estudar mais essa tendência pro recitativo de expressão prosódica, e pro ritmo livre, de muito documento popular brasileiro. Porque na composição artística, os que estão inventnado já dentro da espécie brasileira, permanece por demais dentro da forma quadrada(...)os nossos compositores podem conceber normas caracteristicamente brasileiras de criar melodia infinita”. P.80

O problema da escrita musical para Mário de Andrade é algo evidente nos seus escritos sobre música.[8] Confronta a escrita musical, documentos colhidos por compositores no período e os submete a um criterioso trabalho interpretativo. Ao afirmar uma escrita “quadrada”, o pesquisador assume que a ideia musical não é conservada na “tradução” para o papel, por isso os compositores nacionais teriam total liberdade para desenvolver algum tipo de escrita musical que permitisse um elo de maior fidelidade ao substrato musical.
O artigo Origens do fado traz interessantes percepções de Mário de Andrade sobre a questão folclórica. Por meio de fontes diversas, tais como Enciclopédias, crônicas e diários de viajantes. O pesquisador afirma sobre a “nacionalidade” de determinado gênero musical, que pouco importa o local onde esta foi pioneiramente produ
zida. “ O que realiza, justifica e define uma criação nacional folclórica, é a sua adaptação pelo povo”.(P 95). Em outras palavras, o autor afirma que o que determina a gênese da criação folclórica é a sua adaptação pelo povo.
Sobre o Dinamogenias Políticas, Mário de Andrade escreve um artigo no qual observa as movimentações políticas da década de 30 pré-golpe e as problematiza com as manifestações musicais colhidas por ele durante os levantes populares. Comentando sobre o sentido de coletivização[9] que a música adquire em determinados momentos do estado de espírito, destaco o seguinte excerto:
Mas nós vimos, afora a multidão estacionária de basbaques na maioria estrangeiros: um povo de certamente mais de cem mil pessoas, vibrando num cortejo gritador, todo ele tomado duma raiva dionisíaca, religioso pela precisão de crer em alguém. É num momento desses que o povo para esquecer que é feito de indivíduos independentes uns dos outros, generaliza os hinos, as marchas, as cantigas, as dinamogenias rítmicas que abafam o individualismo e despertam o movimento e, consequentemente o sentir em comum. P 105

Num segundo momento, o musicólogo colhe este documento ( foto), no qual mais uma vez pretende atuar por meio do comentário analítico ao substrato musical sensibilizando os compositores nacionais.  

É, portanto, determinante o seguinte trecho do artigo:
Antes de mais nada elas trazem musicalmente uma grande lição: a ausência quase total de ritmos, dos chamados “nacionais”. Os diletantes da nossa música e os compositores, todos de grande incultura brasileira, o que querem é fazer e escutar ritmos bamboleados de síncopa. Isso é uma falsificação pueril da musicalidade nacional, já falei e repito. Restringir a manifestação musical brasileira ao remeleixo do Maxixe, só porque é gostos, é antes de mais nada uma cegueira. Resultado: A nossa música erudita, de caráter nacional, esta se tornando duma monotina rítmica obcecante.P.107

Notamos por meio do seu epistolário que grande parte da sua correspondência se consolidou por meio de uma interlocução de aspectos e preocupações de âmbito literário. Por meio das epístolas, Mário de Andrade atuava como um verdadeiro guru a todos aqueles que lhe procuravam durante grande período de sua vida. No entanto, não se nota o mesmo no eixo musical. O interesse pela correspondência nem sempre era correspondido e assim, o musicólogo se utilizada de outros meios para tentar sensibilizar a produção musical brasileira, sobretudo a de cunho “artístico”. Encerra o artigo com outro trecho de importante destaque:

 Não estou no momento fazendo considerações partidárias. Não tem dúvida que odeio esta República e especialmente o caudilhismo governamental que nos anda agora envilecendo, porém fora dos partidos e dos ódios, o que me interessa mesmo filialmente, é a perfeição e integridade do meu povo. E não posso negar que escutar primeiro, depois registrar, e agora estudar as dinamogenias políticas ritmadas pelos paulistas, num dos seus mais bonitos dias de instinto nacional, me deu um alegrão que inda estava em folha, sem emprego, diante de mim. P.111



[1] A generalização da sua arte no substrato social é o que a torna popular, segundo M.A
[2] Orgulho de jamais aconselhar – Marcos Antônio de Moraes
[3] Mário de Andrade tem claro que para ele, a música tem uma linguagem autônoma. Não deve buscar se relacionar com outras artes para que se ganhe uma identificação ou torne-se inteligível. Tem clara preferência pela música pura/absoluta que por meio de seus elementos musicais atingem os “ afetos humanos” pela identificação psicológica da “determinada raça”.
[4] Grifo meu.
[5] Karl Marx. A ideologia alemã. P 34

[6] Mário de Andrade. Ensaio sobre a música brasileira. P16
[7] Ver Introdução a Estética musical
[8] Ver também Aspectos da Música Brasileira- O compositor e a língua nacional, por exemplo.
[9] Mário de Andrade atribui esse senso de coletivização musical em diversos escritos. Já é possível notar em discursos de paraninfo antes de 30, a percepção de que a música feita em grupo é capaz de suprimir as potencialidades heregidas sob a perspectiva da sociedade burguesa. Elege constantemente o caso de Martinho Lutero, que no século XVI promove mudanças consideráveis no eixo religioso. A reforma protestante marca Lutero pela sua conduta revolucionária. Missas em alemão, ensino da leitura e a prática do canto coral nos rituais sacros.

domingo, 11 de setembro de 2016

Glosas de Música, doce música

O livro é organizado em séries de artigos que o próprio autor nomeia. A primeira série chama-se Música de Cabeça contempla artigos datados de 1924 à 1931. Sob os seguintes títulos:
·         A música no Brasil
·         Crítica do Gregoriano
·         O Amor em Dante e Beethoven
·         Reação contra Wagner
·         Terminologia Musical
·         O Theremim

Esta primeira série ainda contempla uma segunda parte, denominada Folcore. São artigos escritos entre 1928 e 1930 ( O artigo Berimbau não contém data).  São artigos contemplados nessa etapa:
·         O Romance de Veludo
·         Lundu do Escravo
·         Influência Portuguesa nas Rodas Infantis do Brasil
·         Origens do Fado
·         Berimbau
·         Dinamogenias Políticas

Analisando de forma geral, após leitura delicada de cada um deles, é preciso que não esqueçamos a principal característica atribuída pelo próprio autor aos artigos. São escritos de forma rápida, como forma de fornecer uma literatura de apoio, breve e de fácil consulta, presar e desenvolvidas numa breve superficialidade, destinadas a circulação de um dia, honrando a natureza dos periódicos diários, por meio dos quais estes artigos eram veiculados.
Não pretendo debruçar-me na especificidade de cada artigo, aqui muito mais me interessa uma possível identificação e reconstrução da gênese do pensamento de Mário de Andrade pela via de análise destes artigos.
Assim, devo destacar a escrita atenciosa e muito didática expressada pelo autor.  Longe de ser superficial em seu discurso mesmo sabendo da efemeridade em que concebe estes artigos, Mário de Andrade mergulha em argumentações amplamente pautadas por materiais nos quais se utilizou para pesquisa. Noto por meio da leitura dos seus artigos, a frequente citação de fontes diversas. Pensando no cenário cronológico ao que Mário de Andrade os concebe, deve-se refletir sobre tamanha organização de fontes, livros, periódicos nos quais o escritor trafega para a concepção de seu trabalho. Sua biblioteca é vasta e aborda assuntos diversos, a existência de um Fichário Analítico nos evidência a rigorosa disciplina organizacional que o pesquisador tem para com suas fontes. Sabe da importância de organiza-las e deixar sempre de fácil acesso para uma pesquisa ou contribuição futura em que possa contar com determinado material.  Faz-se importante ilustrar a argumentação com a seguinte passagem do artigos Crítica ao Gregoriano

“Otto Keller ( Geschiste der Musik) exprime com felicidade que “enquanto os povos antigos tinham concebido o som em si mesmo, como meio sensitivo perceptível, o Cristianismo o empregou como meio pelo qual a alma comovida se exprime em belas formas sonoras e melodias agradáveis”. Também o rev. H. Frere, no artigo sobre Cantochão ( Grove’s Dictionary of Music), observa que o valor do modo de cantar criado pelos cristãos, está em que ele representa “ a evolução da melodia artística”. Peter Wagner, verificando a extraordinária riqueza de expressão melódica do gregoriano, acha que sob esse ponto-de-vista talvez a gente não encontra nada de comparável a ele na evolução da música”. P.26

Noto aqui uma preocupação por parte do autor em apoiar seus argumentos em fontes de pesquisa que possam solidificar em bases sua argumentação. Devemos pensar também na dificuldade em ter acesso a uma vasta bibliografia interessada no campo da pesquisa musical. Veremos mais adiante, em artigo intitulado Historias Musicais,  o desafio de se confiar na pobre documentação brasileira até então produzida que contemplasse os interesses do musicólogo.
Verticalizando minha leitura mais atenta ao conteúdo dos artigos, em Crítica do Gregoriano,   noto um Mário de Andrade preocupado em atrelar as “conquistas” técnicas do campo musical sempre atreladas ao desenvolvimento social. Seu conceito de Humanidade está construindo em bases de um pensamento cristão. “ O homem-só e concomitantemente humanizado
(aceita o mundo tal qual é, pressupondo uma igualdade no plano ideal) [1], do Cristianismo, ia tender para uma fase nova da evolução musical, a fase melódica, em que os sons não tem mais como base fundamental de união, a relação durativa que entre eles possa existir, mas a relação puramente sonora. Era mudança bem grande na concepção musical e no emprego da música, que em vez de interessar agora pelos efeitos fisiológicos, pelas dinamogenias mais imediatas e fortemente compreensíveis que o ritmo cria, principiava querendo interessar a parte mais recôndita dos nossos afetos e comoções. Enfim, a música deixa de ser sensorial pra se tornar sensitiva”.P 26
De uma forma genérica, M.A. aqui constrói cenário para explicar o ethos musical que sob tutela do Cristianismo, será desenvolvida de forma interessada a articular a palavra “sagrada” aos rituais cristãos. A música passando de um processo anteriormente dinamogênico para se tornar cerebral, no sentido de ser instrumento “proclamador” das palavras doutrinárias.
Nesse sentido é que o Canto Gregoriano carrega sua maior negatividade, segundo M.A. pois ao seguir sempre as pretensas regras fraseológicas no intento de mover mais claramente os afetos humanos, a música acaba por ser submetida a uma contingente de hierarquias que a deixam desinteressada no aspecto de ser uma arte de obra pura e em franco desenvolvimento.
Os aspecto Dinamogênico reaparece num artigo seguinte denominado Dinamogenias Políticas.
Aqui o escritor nos traz uma série de argumentos importantes que vai nos descrever uma gênese de pensamento envolvida amplamente nas questões sociais do período e também como forma de comunicar astutamente seu projeto “nacionalista” em vias mais gerias como a dos periódicos. O artigo de 1930 ilustra o calor das manifestações sociais frente a Getúlio Vargas. Mário de Andrade se utiliza de dos eventos para colher documentos importantes relativos as dinamogenias políticas atreladas ao comportamento que se manifesta em música.
Ao tecer importantes considerações do caráter socializador da música, o pesquisador aponta: “ É num momento desses que o povo, para esquecer que é feito de indivíduos independentes uns dos outros, generaliza os hinos, as marchas, as cantigas, as dinamogenias rítmicas, que abafam o individualismo e despertam o movimento e, consequentemente o sentir em comum.[2]
A supressão das hierarquias sociais por meio da música, contemplando no tecido orgânico indivíduos de vasta gama social é algo que Mário de Andrade apreende dos movimentos analisados.
Noto em argumentação posterior, esta de cunho muito mais técnico, uma preocupação grande do autor em mostrar que as síncopas não são, em primeiro plano, o ritmo latente na boca do povo quando da manifestação musical. Deve-se questionar então, para quem Mário de Andrade escreve esse tipo de argumento.
Se pensarmos nos tempos em que escreve, as colunas de crítica musicais eram a principal plataforma para sensibilizar os artistas. A comunicação direta nem sempre era a mais eficiente, dado que nem todos os artistas se correspondiam e se dedicavam a correspondência como Mário de Andrade gostaria. Assim, se utilizada da plataforma de imprensa para relembrar e tecer críticas sobre os aspectos estéticos da música brasileira. Ao notar um exagerado uso de sincopas no ato de compor música, Mário de Andrade acusa os compositores de pouca preocupação em se debruçar mais intensamente nas questões sociais que vão construir as bases materiais estéticas para a música brasileira. Nesse sentido critica que “ Restringir a manifestação musical brasileira ao remelexo do Maxixe[3], só porque é gostos, é antes de mais nada cegueira. Resultado: A nossa música erudita de caráter nacional, esta se tornando duma monotonia rítmica obcecante”. P 107.





[1] Grifo meu
[2] Referências importantes – O canto dos Afetos, Chasin, Ibaney.
A mais alemã das artes – Potter, Pamela.
[3] Gênero musical rico em síncopas.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Glosas mariodeandradeanas - Música, doce música, breve introdução.

Como plataforma de prática de escrita, converto aqui o blog que antes pairava sobre o universo da ideia, para um conteúdo concreto e substancialmente real, o da pesquisa.
As glosas que pretendo agora comentar são construídas na base da leitura do título Música, doce música de Mário de Andrade.
A trajetória do livro demanda uma explicação à parte. Idealizado em 1933, o livro Música, doce música é uma seleção de artigos variados publicados ao longo da trajetória de Mário de Andrade enquanto crítico musical. Num recorte de aproximadamente 20 anos, entre o período de 1924 à 1944, o livro traz fragmentos de um pensamento vivo, inquieto e absolutamente coerente com seu tempo. A  primeira edição do livro, datada de 1933, é apresentada pelo próprio autor na Introdução. 

"Das centenas de estudos, artigos, críticas, notas musicais que tenho publicado em revistas, diários, ajunto agora em livro esta primeira escolha. São os milhores ? Em geral creio que são. Mas sei que não valem muito... Sou excessivamente rapído nestes trabalhos jornalísticos. Nunca lhes dei grande cuidado, escrevo-os sobre o joelho no intervalo das horas, destinando-os à existência dum só dia(...) Se a literatura musical brasileira fosse vasta, eu não publicaria este livro. Porém muitas vezes tenho sofrido nos olhos dos meus discípulos a angústia dos que desejam ler." ( Mário de Andrade, Introdução).


As edições seguintes são póstumas. Oneyda Alvarenga não mede esforços na reorganização e no trabalho arqueológico que é conferir ao livro, mais uma série de artigos que deveriam ser revisados e anexados anovas publicações das série de obras completas de Mário de Andrade. Recebem o nome de artigos novos.
Não vou adentrar as questões metodológicas e minucias processuais, aqui me interessam comentários críticos e percepções minhas ao longo das leituras, bem como estabelecer algum tipo de diálogo com o suporte bibliográfico teórico, no mais tradicional academicismo. 

Tudo que em Mário de Andrade parece fazer alusão a construções idílicas, concatenações de plano espiritual no que diz respeito às percepções de um mundo posto a prova "psicologicamente", deve ser saboreado em todas as suas instâncias, de forma intensa e coerente. Digo com isso que se faz necessária uma leitura e apreensão completa das suas determinações, postando-se à prova da plena compreensão do determinado texto, em sua ampla existência enquanto entidade em si e logo em seguida posta em sua referencial processualidade histórica. Evitaremos assim, incorrer em interpretações "plurifacetadas" em que pese a contrapartida do comprometimento do historiador em trilhar caminhos investigativos concretos, imanentes, em pleno diálogo com o ser social vivo, pleno em sua vivência orgânica, na positivação do seu arte-fazer explorando suas potencialidades por meio de seu trabalho.

Dito isto, espero ,jamais encerrar, mas mirar um horizonte onde se plasme teoria e mundo real, na certeza de que a contribuição é efetivamente posta à prova a medida que tiramos do plano da ideia nossas angustias e inquietações, transformando-as em material de questionamentos e análises, desvelando continuidades, rupturas, ocultações e processos de um pensamento que jamais se esgotará em vista das ricas e infindáveis questões que nos surgem no tempo presente.