Mário de Andrade é sistemático.
Busca sempre um processo de imanência história nas categorias artísticas e sociais que observa.
Na partícula Essência Anônima do
Gregoriano ( Crítica ao gregoriano), o pesquisador esboça uma linha de
raciocínio que busca explicar de forma mais clara a permanência das músicas
populares, por meio de suas características ontológicas. Veja-se a seguinte
passagem:
O que faz a intensidade
concentrada da arte popular é a maneira com que as fórmulas melódicas e
rítmicas se vão generalizando[1],
perdendo tudo o que é individual, ao
mesmo tempo que concentram em sínteses
inconscientes as qualidades, os caracteres duma raça ou povo. A gente sabe
que uma melodia popular foi criada por um individuo. Porém esse individuo,
capaz de criar uma forma sonora que iria ser de todos, já tinha de ser tão
pobre de sua individualidade que pudesse tornar assim, menos que um homem, um
humano. P.32
Destaco neste trecho dois aspectos
que são fundamentais no pensamento artístico de Mário de Andrade. Compreendo
que ao assinalar que um indivíduo faz música popular, este a faz de forma a
concatenar psicologicamente a cultura de seu povo em forma de música. Isso é o
que denomina as sínteses inconscientes. Por outro lado, traz um outro ponto que
é chave em sua crítica já na obra de maturidade que é o conceito de individualismo. Quando flagrante a
criação musical atrelada à cultura popular, tem-se o que Mário de Andrade
afirma como um artista do povo e a sua forma mais clara de apreensão deste
conceitos é a permanência de sua música popular, pelas gerações que se seguem.
Quando imbuído de anseios egocêntricos, o artista deixa de prestar a
necessidade de que se faz ser artista.
Desta forma, fazendo uma digressão
de forma mais ampla para o sentido interessado
de arte na qual Mário de Andrade determina. e isso notamos deste a obra
imatura até sua morte. A arte interessada para M.A é o trabalho com o objetivo
de mover, impactar, formar e questionar uma sociedade. O pesquisador é por
várias vezes categórico em afirmar a necessidade de o artista sacrificar o belo ( Um fim para arte que
começa a despontar no Iluminismo, segundo próprio M.A, quando a arte se torna desinteressadamente burguesa) para então
voltar as questões onto-imanentes da produção de sua arte. Importante notar que
Mário de Andrade positiva-se enquanto sujeito autoproducente de duas formas
características, não necessariamente distintas. Quando escreve poesia, contos,
crônicas este exerce o trabalho de artística, positiva-se por meio de produção
de criação intelectual. A outra via em que devemos compreender ontologicamente
o trabalho de Mário de Andrade é sua postura de professor. Como trabalhador orgânico,
M.A é professor do Conservatório Dramático Musical desde 1917. Exerce intensa
função como catedrático de História da Música. Assim, quando não um artista
producente, que se positiva pelo meio de sua criação artística por meio de
produção artística literária, o escritor é um ensaísta, crítico e tutor. Noto
pela vasta documentação epistolar[2],
os ensaios publicados ( principalmente os musicais) e a vasta crítica que deste
1917, pelo jornal A Gazeta, Mário de
Andrade atua intensamente, até o fim de sua vida, migrando por diversos
periódicos dos quais exerce sua função orgânica publicando em colunas musicais.
Assim, apoiando o comentário à
respeito do pesquisador que se utiliza da sua coluna como uma plataforma de
lançar suas ideias e projetos pedagógicos, M.A não poupa críticas em suas
concepções a respeito do desenvolvimento imanente musical em escritos voltados
para o estudo da História da Música. Vejo em Reação contra Wagner, um artigo preocupado em situar a complexa
relação egocêntrica que o artista romântico desempenha com a sua arte, no caso
a produção musical, o autor nos aponta sua inquietação com o fenômeno de música descritiva[3].
A música perdera aquelas
prerrogativas, tão salientes no período setecentista, de valer por si mesma, liberta
da literatura[4],
para se tornar de novo ancila do pensamento e do drama da vida. P.50
Noto a crítica ao movimento retrógrado que os
compositores, sobretudo Richard Wagner, busca levar as últimas consequências o
espectro da musical tonal, comentado por muitos musicólogos como a última etapa
antes da superação da tonalidade. Mário de Andrade busca neste artigo comentar
que a necessidade de evolução humana, na qual se positiva por meio de seu
trabalho, pela apreensão de novas técnicas em que se sujeita, nem sempre esta
atrelada a criar novas teorias, veja:
Os homens,
nesta questão, são levados pela necessidade natural do espírito, em perene
evolução; e o mérito de alguns deles não eta em inventarem as teorias reacionárias, sinão em realizarem o espírito
reacionário, mais ou menso unânime, com maior constância, maior eficácia e
diga-se o termo, maior genialidade. P 51
Discursa sobre a questão
reacionária, posto que neste sentido o romantismo volta ao padrões
renascentistas de tentar promover uma mimese do que é real, tentando aproximar
elementos da vida orgânica. O compositor usa literatura, dança e imagens para
atribuir significado a sua linguagem musical. Nesse sentido, Mário afirma que
pode-se fazer música com algum contribuição a concepção interessada de arte,
deste que o compositor que a escreva não esteja necessariamente preocupado em
produzir algo novo. Nesse sentido, toma as figuras de Brahms, Cesar Franck e
Verdi para apontar que não levaram a superação da estética romântica que
encontra seu ápice em Wagner, mas desenvolveram densamente a concepção de
música pura, seguindo um padrão de adensamento do desenvolvimento musical no
sentido ontológico, pela intensificação na linguagem cromática e em demais
atributos ontológicos musicais ( intenso desenvolvimento de polifonia
contrapontística, por exemplo) sem recorrer ao “falseamento” artístico de
atrelar uma submissão da linguagem musical a qualquer outra que possa ser tida
como mais inteligível.
Observando desta forma o aspecto
da linguagem, que se urde tal qual “a consciência, do carecimento, da
necessidade de intercâmbio com outros homens.”[5]Assim,
a linguagem musical enquanto instância concreta da consciência humana é
fundamental ponto de análise. A propositura estético-musical idealizada por
Mário de Andrade pode representar um estratégico posicionamento na qual se
utiliza a linguagem musical “dominante”, construída nas bases da “colonização
artística europeia”, para que o artista tenha apenas que “(...) dar pros
elementos já existentes uma transposição erudita que faça da música popular,
música artística(...)[6]”
.
Em Terminologia Musical, o musicólogo problematiza algo extremante
significativo em sua obra e vivamente recorrente que é a preocupação com o
estabelecimento de um padrão nos termos musicais. Sua preocupação didática é
extensiva, incluindo tais inquietações a respeito do vocabulário musical. A
seguinte passagem é substancialmente significativa:
A fala portuguesa que os tempos
da Colônia nos herdaram é relativamente pobre em terminologia artística geral.
Tao pobre em termso de arte quanto rica em termos náuticos. As artes no geral
evoluíram sem a colaboração de Portugal; a musicologia luso-brasileira é
paupérrima, das mais pobres do universo. Isso faz com que tudo quanto lemos e
sabemos a respeito de artes, seja colhido em livros de outras línguas, especialmente franceses. Só muito
recente, e benecifcamente, a língua alemã esta entrnando em concorre^cnai com a
francesa. Ora quando a gente escreve sobre qualquer arte, em língua nacional, a
todo momento esbarra em vácuos vocabulares penosíssimos. P 56
Noto pelo fragmento dois aspectos
que merecem destaque. Pela percepção viva e material, Mário de Andrade levanta
uma questão sensível sobre a bibliografia para consulta. Precisa-se ter em
mente que, quando o autor manifesta notas de repúdio ou a escassez de
determinadas fontes, faz parte de seu projeto política uma sensibilização real
por parte de quem o lê. Nesse sentido, ao trazer o espectro analisando para o
plano ontológico da vida orgânica, o professor esta claramente manifestando a
ausência de uma preocupação musicológica do passado e também dos colonos em ter
dado uma importância maior para os estudos das fontes musicais. Para
fundamentar suas aulas no conservatório, Mário de Andrade não goza de vasta
bibliografia, o que o impossibilita de muitas vezes preparar um material
didático com maior rigor[7].
Nesse sentido, consequentemente, encaminha a crítica da importância de se desenvolver
uma terminologia conscientemente nacional. Até porquê, preocupado com o
processo história de formação de conceitos atribuídos as palavras do idioma, se
mostra também muito inquieta com o uso deliberado de vocábulos, sem existir uma
plena consciência do seu significado. Mário de Andrade atesta suas percepções
pautadas em vivências concretas de sua experiência, o que é um
importante fator de análise sob o ponto de vista da pesquisa.
A sessão Folclore, contida como fragmento da primeira série de artigos,
destaca-se pelo substrato orgânico colhido pelo ensaísta como forma de realizar
sua pesquisa. Realiza um verdadeiro trabalho arqueológico das fontes orais,
buscando compreender e problematizar as idiossincrasias na onto-imanência do
substrato musical. Desta maneira, afirma que por serem as peças “ compridas por
demais pra ser fácil a transmissão oral de texto e música” ( P.79) as músicas
sofriam deveras alterações. Sejam pela parte rítmica ou mesmo pela melodia.
Densamente envolvido na sistematização de criação artística, Mário de Andrade
aponta uma nova preocupação, dessa vez relativa a própria deficiência da grafia
musical. Veja:
“... liberdade prosódica, um
rubato de expressão oratória, impossível da gente registrar com os valores tão
deficiente da grafia musical. Me parece que os nossos compositores deviam de estudar
mais essa tendência pro recitativo de expressão prosódica, e pro ritmo livre,
de muito documento popular brasileiro. Porque na composição artística, os que
estão inventnado já dentro da espécie brasileira, permanece por demais dentro
da forma quadrada(...)os nossos compositores podem conceber normas
caracteristicamente brasileiras de criar melodia infinita”. P.80
O problema da escrita musical para
Mário de Andrade é algo evidente nos seus escritos sobre música.[8]
Confronta a escrita musical, documentos colhidos por compositores no período e
os submete a um criterioso trabalho interpretativo. Ao afirmar uma escrita “quadrada”,
o pesquisador assume que a ideia musical não é conservada na “tradução” para o
papel, por isso os compositores nacionais teriam total liberdade para
desenvolver algum tipo de escrita musical que permitisse um elo de maior fidelidade
ao substrato musical.
O artigo Origens do fado traz interessantes percepções de Mário de Andrade
sobre a questão folclórica. Por meio de fontes diversas, tais como
Enciclopédias, crônicas e diários de viajantes. O pesquisador afirma sobre a “nacionalidade”
de determinado gênero musical, que pouco importa o local onde esta foi
pioneiramente produ
zida. “ O que realiza, justifica e define uma criação
nacional folclórica, é a sua adaptação pelo povo”.(P 95). Em outras palavras, o
autor afirma que o que determina a gênese da criação folclórica é a sua
adaptação pelo povo.
Sobre o Dinamogenias Políticas, Mário de Andrade escreve um artigo no qual
observa as movimentações políticas da década de 30 pré-golpe e as problematiza
com as manifestações musicais colhidas por ele durante os levantes populares. Comentando
sobre o sentido de coletivização[9]
que a música adquire em determinados momentos do estado de espírito, destaco o
seguinte excerto:
Mas nós vimos, afora a multidão estacionária
de basbaques na maioria estrangeiros: um povo de certamente mais de cem mil
pessoas, vibrando num cortejo gritador, todo ele tomado duma raiva dionisíaca, religioso
pela precisão de crer em alguém. É num momento desses que o povo para esquecer
que é feito de indivíduos independentes uns dos outros, generaliza os hinos, as
marchas, as cantigas, as dinamogenias rítmicas que abafam o individualismo e
despertam o movimento e, consequentemente o sentir em comum. P 105
Num segundo momento, o musicólogo
colhe este documento ( foto), no qual mais uma vez pretende atuar por meio do
comentário analítico ao substrato musical sensibilizando os compositores
nacionais.
É, portanto, determinante o
seguinte trecho do artigo:
Antes de mais nada elas trazem
musicalmente uma grande lição: a ausência quase total de ritmos, dos chamados “nacionais”.
Os diletantes da nossa música e os compositores, todos de grande incultura
brasileira, o que querem é fazer e escutar ritmos bamboleados de síncopa. Isso
é uma falsificação pueril da musicalidade nacional, já falei e repito.
Restringir a manifestação musical brasileira ao remeleixo do Maxixe, só porque
é gostos, é antes de mais nada uma cegueira. Resultado: A nossa música erudita, de caráter nacional, esta se tornando duma
monotina rítmica obcecante.P.107
Notamos por meio do seu
epistolário que grande parte da sua correspondência se consolidou por meio de
uma interlocução de aspectos e preocupações de âmbito literário. Por meio das
epístolas, Mário de Andrade atuava como um verdadeiro guru a todos aqueles que
lhe procuravam durante grande período de sua vida. No entanto, não se nota o
mesmo no eixo musical. O interesse pela correspondência nem sempre era
correspondido e assim, o musicólogo se utilizada de outros meios para tentar
sensibilizar a produção musical brasileira, sobretudo a de cunho “artístico”.
Encerra o artigo com outro trecho de importante destaque:
Não estou no momento fazendo considerações
partidárias. Não tem dúvida que odeio esta República e especialmente o
caudilhismo governamental que nos anda agora envilecendo, porém fora dos
partidos e dos ódios, o que me interessa mesmo filialmente, é a perfeição e
integridade do meu povo. E não posso negar que escutar primeiro, depois registrar, e
agora estudar as dinamogenias políticas ritmadas pelos paulistas, num dos seus
mais bonitos dias de instinto nacional, me deu um alegrão que inda
estava em folha, sem emprego, diante de mim. P.111
[1] A
generalização da sua arte no substrato social é o que a torna popular, segundo
M.A
[2]
Orgulho de jamais aconselhar – Marcos Antônio de Moraes
[3]
Mário de Andrade tem claro que para ele, a música tem uma linguagem autônoma.
Não deve buscar se relacionar com outras artes para que se ganhe uma
identificação ou torne-se inteligível. Tem clara preferência pela música
pura/absoluta que por meio de seus elementos musicais atingem os “ afetos
humanos” pela identificação psicológica da “determinada raça”.
[4]
Grifo meu.
[5]
Karl Marx. A ideologia alemã. P 34
[6]
Mário de Andrade. Ensaio sobre a música brasileira. P16
[7]
Ver Introdução a Estética musical
[8]
Ver também Aspectos da Música Brasileira- O compositor e a língua nacional, por
exemplo.
[9]
Mário de Andrade atribui esse senso de coletivização musical em diversos
escritos. Já é possível notar em discursos de paraninfo antes de 30, a
percepção de que a música feita em grupo é capaz de suprimir as potencialidades
heregidas sob a perspectiva da sociedade burguesa. Elege constantemente o caso
de Martinho Lutero, que no século XVI promove mudanças consideráveis no eixo
religioso. A reforma protestante marca Lutero pela sua conduta revolucionária.
Missas em alemão, ensino da leitura e a prática do canto coral nos rituais
sacros.

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