terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Interpretações sobre música

Mário de Andrade (1893-1945) foi um artista brasileiro que buscou por meio de uma perspectiva crítica, compreender as condições históricas determinantes para a objetivação das várias formas de artes em seu tempo. Expressou-se por meio de seus escritos onde lançou mão de um amplo aparato teórico utilizando-se da literatura europeia, sobretudo alemã e francesa, potencializando sua visando crítica das condições estruturais de se fazer arte no Brasil no bojo da incipiente industrialização paulista.
O autor vive a primeira metade do século XX, período marcado pela intensificação nas contradições sociais, determinadas pelas condições em que se desenvolve um capitalismo dependente no país, de perfil associativo onde as aristocracias rurais aliam-se a burguesia cafeeira, o capital estrangeiro esta cada vez mais potencializando o eixo heteronômico da economia brasileira e portanto, limitando suas condições de desenvolvimento interno, aumentado os abismos sociais que contemplam em sua base o trabalhador assalariado (ex-escravos, imigrantes) e no topo uma elite burguesa aliada aos aristocratas rurais. 
Assim, as inquietações de âmbito social assumem na palavra de Mário de Andrade, um viés crítico na qual ataca as estruturas da elite e questiona a legitimidade de um governo municipal que parece imprimir mecanismos de segregação social a atender a demanda da burguesia paulista. Mário de Andrade escreveu em 1928 uma série de artigos intitulada “Campanha contra as temporadas líricas”, na qual o cronista tece longas críticas ao papel omisso da prefeitura do município de São Paulo em subsidiar a produção artística paulista. As empresas que tem o manifesto interesse por grandes lucros, atuam de forma conjunta a oferecer espetáculo de pouca inovação estética a preços exorbitantes. Nesse sentido, o cronista diz:

Na crônica de ontem eu acabava com esta frase verdadeira, o maior crochê de erros sobre que se baseia a temporada: “O público que vai no Municipal não representa absolutamente o povo da cidade, que elegeu os donos da Prefeitura, pra que este subvencionasse uma Empresa, pra que esta por preços exorbitantes satisfizesse uma moda da elite”. O povo foi abolido da manifestação melodramática oficial da cidade. (ANDRADE, 1928. P.182)

Manifesta na palavra de Mário de Andrade, sua indignação com a ausência do aparato estatal em subvencionar a produção artística para um substrato social que vive no limite das suas condições de sobrevivência, reduzindo de forma substancial a capacidade de expansão das potencialidades humanas, em função de um mecanismo expropriador do produto do trabalho, mas que também age por limitar as condições materiais para que homens, mulheres e crianças (povo) possam fruir das produções artísticas[1].
Assim, vejamos que as determinações históricas impõem limitações ao processo de autodesenvolvimento humano. Homens, mulheres e crianças são impossibilitados de fruir e desenvolver a máxima potencialidade de seus sentidos, uma vez que os mecanismos do modo de produção não permitem o gozo daquilo que é produto artístico do trabalho humano. Nesse sentido, vê-se que:

A formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história do mundo até aqui. O sentido constrangido à carência prática rude também tem apenas um sentido tacanho. Para o homem faminto não existe a forma humana da comida, mas somente a sua existência abstrata como alimento; poderia ela justamente existir muito bem na forma mais rudimentar, e não há como dizer em que esta atividade de se alimentar se distingue da atividade animal de alimentar-se. O homem carente, cheio de preocupações, não tem nenhum sentido para o mais belo espetáculo; o comerciante de minerais vê apenas o valor mercantil, mas não a beleza e a natureza peculiar do mineral (...) ; portanto a objetivação da essência humana, (...) é necessária tanto para fazer humanos os sentidos do homem quanto para criar sentido humano correspondente à riqueza inteira do ser humano e natural. (MARX, K. 2010. P.110)

Dessa forma, entendemos que existem condições essenciais que precisam ser superadas para que seres humanos possam, então, na fruição da vida material genérica, desenvolver a potencialidade dos sentidos humanos. Porém, as condições sociometabólicas historicamente determinadas acabam por limitar as condições de objetivação humana ao limite necessário para a sobrevivência, no momento em que sujeitos que ocupam a base da estratificação social, são impossibilitados de fruir da produção artística que é a expressão objetiva de toda a essência humana.

OBJETIVAÇÃO
Nesta etapa procuro desenvolver em que medida os textos sobre música de Mário de Andrade podem nos dar pistas sobre a importância que o musicólogo atribui à música como manifestação artística, objetivação da essência humana.
Destarte, faz-se necessário apontar a relação de Mário de Andrade com a música. Era músico, professor de piano e de matérias teóricas como Estética musical e História da música. Fica claro que a forma mediativa entre Mário de Andrade e a música, se dá pelo trabalho. Nesse sentido identifiquei até agora, diversos gêneros de textos pela temática musical. Englobam críticas de concerto, estudos folcloristas, questionamentos sobre a posição social da música, crônicas, ensaios, conferências e orações de paraninfo. São textos diversos, concebidos ao longo de sua vida, muitas das vezes escritos sob determinações circunstanciais específicas que o sensibilizam para o ato de sua escrita. Por isso, muitas vezes, atribui aos textos uma vida “curta”[2] por tratarem-se de projetos, muita das vezes, espontâneos e efêmeros.
Entretanto, existem empreendimentos mais duradouros, seja por intenção ou por determinações causais que tornam seus escritos indicativos claros de interpretações fenomenológicas referentes à música. Vejamos:
É num momento desses que o povo, para esquecer que é feito de indivíduos independentes uns dos outros, generaliza os hinos, as marchas as cantigas, as dinamogenias rítmicas, que abafam o individualismo e despertam o movimento e, consequentemente, o sentir em comum. (ANDRADE,2006,p. 96 – grifo meu)


O trecho acima trata de uma observação feita por Mário de Andrade sobre uma manifestação popular ocorrida em São Paulo. Na ocasião, o musicólogo ainda grafou as melodias que conseguiu colher do grande coro popular que cantava as excitações políticas, expressando as preferências ao potencial candidato. No entanto, destaco aqui uma importante nota em que Mário de Andrade atribui à música um sentido coletivizador, no qual pelo êxtase das dinamogenias rítmicas, despertam o movimentar do corpo, o sentir em comum.

COMPREENSÃO E SENTIDOS
Em outro trabalho, Terapêutica musical, Mário de Andrade destaca a força biológica excepcional da música, em comparação com as demais artes[3]. Duas categorias onto-imanentes musicais destacam-se, na percepção de Mário de Andrade, que fazem da música, a arte mais coletivizadora. São estas a força contundente do seu ritmo e da indestinação intelectual do seu som[4].

 Na música, como os sons não são representação de coisa alguma, e as melodias são puras imagens sonoras de sentido próprio, o ritmo se apresenta puro, indisfarçado, não desviado, contendo a sua significação em si mesmo. Daí poder ele manifestar toda a sua violenta força dinamogênica sobre o indivíduo e sobre as multidões (ANDRADE, 1956. P.14 – grifo meu).


Ao interpretar de que forma Mário de Andrade concebe os sons como não representação de coisa alguma, e da mesma forma atribui ao ritmo uma significação em si, vejo que o musicólogo entende a música e todo seu universo categorial onto-imanente com determinada autonomia. Digo com estas palavras que o pesquisador percebe a entidade musical com seu fim justificado por si mesma, ou seja sua significação é absoluta. A música é o acontecimento de si própria e que só é capaz de provocar graus de tensão emocional que por identidade podem ser associados a acontecimentos apreciáveis intelectualmente. O que não quererá nunca dizer porém, que ela os represente.[5]
Ao refletir sobre a complexidade das instâncias categorias da musica, seus potenciais significantes e significados, penso que é preciso fundamentar as ordens mediativas que objetivam-na como um complexo concreto, entidade artística.

ARTE
Pela necessidade de compreender a complexidade ontológica da música, faz-se importante entender de que maneira esta especificidade de arte se positiva no mundo.
Primeiramente, devemos entender que a obra de arte é uma forma de objetivação do ser social. Trata-se, portanto, do produto do trabalho de indivíduos, o homem produz o homem, a si mesmo e ao outro homem. Assim como [produz] o objeto, que é o acionamento imediato da sua individualidade e ao mesmo tempo sua própria existência para o outro homem, [para] a existência deste, e a existência deste para ele.[6] Vejamos que a produção do mundo é a produção do indivíduo que se objetiva por meio de seu trabalho. E que para tanto, é necessário que as condições genéricas de produção e fruição do mundo sejam plenamente satisfeitas. Nesse sentido, uma vez liberta da premência da necessidade imediata pela ação do trabalho produtivo, a atividade artística surge em seguida como uma nova forma de afirmação essencial que o homem pode modelar “segundo as leis da beleza”.[7] 
Assim, a objetivação por meio da atividade artística é tardia em relação às formas essenciais de objetivação humana. A necessidade de expressão artística nasce após a superação das condições matérias necessárias para sobrevivência. A cada condição superada, nascem novas necessidades do ser social. É assim com o desenvolvimento de sua consciência que, antes manifesta-se como mera consciência do meio sensível mais imediato e consciência do vínculo limitado com outras pessoas e coisas exteriores ao indivíduo que se torna consciente.[8]     
Sendo assim, a música se faz compreensível à medida que a consciência e os sentidos[9] desenvolvem-se a ponto de tornar o sujeito capaz de assimilar e associar o som musical a entidades orgânicas comuns a si, sendo uma composição musical tanto mais compreensível na medida em que se despertam mais associações que nos são dadas pelos conhecimentos de tempo (afinidades de civilização), de raça (afinidades nacionais), de temperamento (afinidades fisiológicas), de sensibilidade (afinidades eletivas)[10].
No entanto, pelas palavras de Mário de Andrade, compreender um som musical não significa que ele represente algo. Sua significação é imanente à ontologia da música. É concreto, posto que se trata de síntese de múltiplas determinações que objetivam a produção sonora e são significadas por si mesmas.  Como tratar então, a semântica musical?
Existem diversos tipos de interpretação que se ocupam da complexidade imanente na busca por esgotar um assunto tão abstrato quanto este. Minha via de análise busca privilegiar o entendimento que a música não possui uma história autônoma imanente, que resulte exclusivamente da sua dialética interior. A evolução (...) é determinada pelo curso de toda a história da produção social, em seu conjunto; e só com base neste curso é que podem ser esclarecidos de maneira verdadeiramente científica os desenvolvimentos e as transformações que ocorrem em cada campo singularmente considerado[11].
Assim, a chave para compreender a semântica musical atribuída por Mário de Andrade está na análise do processo de desenvolvimento histórico. Nesse sentido, existem as inflexões culturais, as marcas que não se apagam, associam-se às sonoridades, trazidas por informações extra-musicais que terminam por se tornar música. Biografias, confissões, títulos, metáforas literárias, textos programáticos, tudo isso faz parte da música, “dirige” esses vastos horizontes emocionais, cujo ponto de partida é pouco determinado[12].
Dessa forma, percebo que embora a produção do som musical em sua existência em si, seja uma síntese de múltiplas categorias imanentes tais como altura, intensidade, timbre e ritmo, existe um estro essencial de sua compreensão que é observar a integridade da sua manifestação. Para Mário de Andrade, a manifestação musical é uma fusão de quatro entidades distintas: o criador, a obra-de-arte, o intérprete e o ouvinte.[13] As três entidades subjetivas em si, são passiveis de se fundir, ou seja, o criador ser simultaneamente, o intérprete e o ouvinte. A obra-de-arte musical é uma mensagem morta que adquire realidade por meio do intérprete e do ouvinte.[14] Analisando a interpretação que o musicólogo faz da entidade obra-de-arte, percebo que trata-se de uma protoforma positivada pelo fruto do trabalho humano, potencializada por sua singularidade, morta, que só se realiza em sua forma completa e superada  pelas mãos do intérprete e pelos ouvidos do ouvinte. Logo, o núcleo musical é potencializado, pela ação humana em seu determinado tempo histórico.
Portanto, a analise dos textos musicais de Mário de Andrade pode nos trazer apreensões concretas da percepção do intelectual que atuou intensamente com a temática musical ao longo de sua vida. A essa análise, no entanto, faz se necessária que seja fundamentada nas possíveis aproximações da experiência histórica do autor no determinado momento em que concebe seus trabalhos. Tentei sintetizar uma pequena demonstração de como venho trabalhando com esse material. Apesar da aparência “audaciosa” de contemplar o pensamento musical de Mário de Andrade em minha análise, sei que é impossível esgotar a imensidão da contribuição mariodeandradiana. Faço-a ,no entanto, com o objetivo de trazer a luz, inquietações profundas sobre os arranjos sociopolíticos substanciados pelo trabalho da humanidade na fruição plena do ser social pela apreensão de sua produção artística. Não se deve perder de vista que o mundo em que vivemos é um mundo construído por seres humanos, fruto essencialmente do trabalho humano, um complexo histórico de desenvolvimento das formas de objetivação do ser social até aqui. Para além de uma compreensão material do mundo, nexos e determinações causais, a analise que aqui empreendi tratou de buscar na singularidade específica de um determinado sujeito histórico, apreensões acerca de uma forma de objetivação humana, tão negligenciada quanto elitizada que é a música de concerto. Vejamos que as inquietações presentes no pensamento crítico de Mário de Andrade, longe de serem superadas, nos mostram  a potencialização dos abismos sociais, a obra-de-arte que é fruto da humanidade, por ela concebida permanece restrita a pequenos grupos sociais. A fruição da vida material é cada vez mais limitada por uma série de determinações oriundas das práticas capitalistas por parte dos grandes empresários. A humanidade se cria, potencializa-se, desenvolve e supera suas próprias capacidades de criação, ao mesmo tempo em que limita a fruição da própria vida humana.














REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CANDIDO, Antônio. Vários escritos. – 3ª ed. rev. E ampl. – São Paulo: Duas Cidades, 1995.

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COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 9 ed – São Paulo: Editora UNESP, 2010

FERNANDES, Florestan. “A revolução burguesa no Brasil”: ensaio de interpretação sociológica. 3 ed.  Rio de Janeiro : Guanabará, 1987.

FREDERICO, Celso. A arte no mundo dos homens: o itinerário de Lukács. São Paulo: Expressão Popular, 2013.

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MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista: São Paulo e Adoniran Barbosa. Bauru: EDUSC, 2007.

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TÊLE Ancona Lopez. Mário de Andrade: Ramais e Caminho. São Paulo: Duas Cidades. 1972

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa, 2: a maldição de Adão. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

TONI, Flávia Camargo. A missão de pesquisas folclóricas do departamento de cultura. Centro Cultural São Paulo, 1989.




[1] Ver-se-á que as inquietações de Mário de Andrade quanto a popularização da arte, assumem pelas vias de sua própria objetivação, ações concretas de “reparo” e democratização durante sua atuação como diretor no Departamento de Cultura do município de São Paulo. “  Durante os três anos de gestão de Mário de Andrade, o Departamento de Cultura desenvolveu uma quantidade de projetos feitos pelas divisões que o integravam. Os projetos visavam, por um lado, a fixação e a preservação da cultura nacional, bem como a formação de técnicos especializados; por outro , dirigiam-se à coletividade, de imediato, com as bibliotecas, programação de concertos e o incentivos aos conjuntos amadores. Dentre os projetos destacamos: criação do Coral Popular, ampla franquia aos Concertos promovidos pelo Departamento, abertura da parques infantis com programações estudadas para cada região do município.” TONI, Flávia Camargo. A missão de pesquisas folclóricas do departamento de cultura. Centro Cultural São Paulo, 1989. P. 20, 21.
[2] “Das centenas de estudos, artigos, críticas, notas musicais que tenho publicado em revistas e diários, ajunto agora em livro esta primeira escolha. São os milhores ? Em geral, creio que são. Mas sei que não valem muito... Sou excessivamente rápido nestes trabalhos jornalísticos. Nunca lhes dei grande cuidado, escrevo-os sobre o joelho no intervalo das horas, destinando-os à existência dum só dia(...)” ANDRADE, Mário de. Música, doce música. 3ª Ed. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 2006.
[3] ANDRADE, Mário de. Namoros com a medicina. São Paulo: Martins, 1956
[4] Ibidem 24
[5] ANDRADE, Mário Raul Moraes de. Introdução à estética musical : pesquisa, estabelecimento de texto, introdução e notas por Flávia Camargo Toni- São Paulo: Hucitec, 1995. P.37.
[6] MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010. P. 106
[7] FREDERICO, Celso. A arte no mundo dos homens: o itinerário de Lukács. São Paulo: Expressão Popular, 2013. P.44.
[8] MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. P. 35
[9] Para exemplificar de forma mais coerente a afirmação objetiva do ser social no mundo destaco “Ao olho um objeto se torna diferente do que ao ouvido, e o objeto do olho é um outro que o do ouvido. A peculiaridade de cada força essencial é precisamente a sua essência peculiar-efetivo. Não só pensar, portanto, mas com todos os sentidos o homem é afirmado no mundo objetivo(...) assim como a música desperta primeiramente o sentido musical do homem, assim como para o ouvido não musical a mais bela música não tem nenhum sentido, é nenhum objeto, porque o meu objeto só pode ser a confirmação de uma das minhas forças essenciais, portanto só pode ser para mim da mesma maneira como a minha força essencial é para si como capacidade subjetiva, porque o sentido de um objeto para mim vai precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, por causa disso é que os sentidos do homem social são sentidos outros que não os do não social.( MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010. P. 110)
[10] ANDRADE, Mário Raul Moraes de. Introdução à estética musical : pesquisa, estabelecimento de texto, introdução e notas por Flávia Camargo Toni- São Paulo: Hucitec, 1995. P.42
[11] LUKÁCS, György. Introdução aos escritos estéticos de Marx e Engels. In: Cultura, arte e literatura: textos escolhidos/ Karl Marx e Friedrich Engels – 1 ed. São Paulo : Expressão Popular, 2010.
[12] COLI, Jorge. Música final: Mário de Andrade e a sua coluna jornalística Mundo musical. Campinas, SP: Editora Unicamp, 1998.
[13] ANDRADE, Mário Raul Moraes de. Introdução à estética musical : pesquisa, estabelecimento de texto, introdução e notas por Flávia Camargo Toni- São Paulo: Hucitec, 1995. P.55
[14] Ibidem. P 61

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Glosas - Parte final

A última série de artigos contida no texto denominada de “Novos artigos” é fruto de um trabalho arqueológico de Oneyda Alvarenga. Publicados após a morte de M.A, os novos artigos foram coletados no próprio acervo do autor. Haviam sido separados enquanto recortes de jornais e alguns ainda por publicar. O trabalho de Oneyda foi validar por meio da concepção dos artigos já existentes em Música, doce música, para posteriormente publica-los em edições póstumas. São 24 artigos no total. A série como um todo apresenta uma clara mudança no eixo crítico de Mário de Andrade. Não se trata de uma ruptura ideológica com o passado, mas observo que cruzando as datas de produção destes artigos, com outros textos de perfil parecido[1], noto uma expressão mais acaba de uma série de categorias presentes no pensamento de Mário de Andrade, algo que será determinante até o fim de sua vida.
Os artigos que integram a última série do livro são :
·         As Bachianas 1938
·         Música Popular 1939
·         Música Nacional 1939
·         Quarto de tom 1939
·         Nacionalismo musical 1939
·         Laforgue e Satie 1939
·         Sonoras Crianças 1939
·         Francisco Mignone 1939
·         Teutos mas músicos 1939
·         Ernesto Nazareth 1940
·         Camargo Guarnieri 1940
·         Chiquinha Gonzaga 1940
·         Paganini 1940
·         A modinha e Lalo 1941
·         O desnivelamento da Modinha 1941
·         O espantalho 1942
·         Música brasileira 1942
·         Histórias musicais 1942
·         Distanciamentos e aproximações 1942
·         São Contos de Guerra 1944
·         Romain Rollando, músico 1944
·         Chopin 1944
·         Oferta musical S. D.
·         Hino às Nações Unidas S. D

Acho muito significativo poder, por meio de uma leitura comparativa, notar que os artigos da última série são precedidos de uma lacuna de seis anos em relação à série anterior. Plenamente explicado pelas condições de confecção das edições posteriores. A ideia acaba que Mário de Andrade tinha de seu livro “Música, doce música” é expressa até a série “Música de pancadaria”. Por ocasião da publicação de sua obra integral pela editora Martins, o musicólogo deixa em seu material de trabalho indicações anexar artigos para a grande coleção, mas que não chega a concluir em vida. Portanto, a série “Artigos novos” nos mostra uma expressão muito madura do que Mário de Andrade parecia acreditar dos “problemas sociais da música”. Empenhado em discutir o caso, os artigos adquirem um teor severamente mais crítico e acompanhando a maturidade do escritos, muito mais dedicado a verticalizar-se nas questões sociais no geral. Não exclui no entanto a percepção de musicólogo e esteta, quando dos artigos que abordam uma crítica estética de música. É o caso de “As bachianas” quando Mário de Andrade esta preocupado em discutir a concepção da incipiente série de músicas que Villa-Lobos. Problematiza a fundamentação teórica de Villa-Lobos, afirmando que a herança bachiana é muito mais um fruto da condição “caótica da musica nacional” do que atribuir-lhe uma significância de uma ordem “erudita”. Vejamos:
“Não há, pois, nada de mais que apareçam em Bach coincidências com a música popular brasileira. Duas delas são facilmente explicáveis. Bach foi um “syncopated”. Principalmente nas suas fugas, em que é visível a precisão desagradável que lhe causava a inflexibilidade do compasso, as síncopas são bastante numerosas. Nas melodias brasileiras também as síncopas são numerosas, surgindo daí uma analogia espontânea, mais propriamente técnica, aliás, que sonora. Por outro lado, Bacu usa constantemente, nas peças de andamento rápido, o processo de movimento perpétuo, muito frequente nas tocas do seu século, em que se repete sistematicamente só um valor sonoro, no geral a semicolcheia. Isso é também frequentíssimo em nossas cantigas e danças de fundo africano, chegou mesmo a caracterizar o lundu popular oitocentista, e deu base rítmica na nossa atual embolada”. P.263

Percebo que para Mário de Andrade, a relação “bachiana” de que Villa-Lobos esta preocupado em fruir em sua música, é muito mais um resultado de um processo histórico herdado, pelas condições gerais de uma intensa submissão à cultura europeia de uma forma geral. Não existe para o musicólogo originalidade ao conceber Bach em música brasileira. Posto que o próprio autor afirma que tecnicamente, as características musicais em sua imanência, isolados de seus processos sociometabólicos, não podem significar originalidade.[2]
Assim, ainda na perspectiva crítica da concepção de musica brasileira que visa empreender em seu projeto nacionalista, Mário de Andrade escreve “O espantalho” artigo que comenta obras e a admiração que tem por Francisco Mignone.  Também traz para discussão questões que da problemática composicional que enxerga na crise “musical” dos modernistas. Para além de breves apontamentos, Mário de Andrade aponta que a crise musical dos modernistas esta muito mais em não saber trabalhar de forma inovadora, sendo reduzidos sempre as estros românticos que herdam de seus ancestrais. A ancestralidade musical parece assombrar as criações modernas. Tais apontamentos fazem-no enxergar em Francisco Mignone “não apenas o maior sinfonista brasileiro, mas um dos maiores instrumentadores que conheço” P.338. Esse comentário surge após Mário de Andrade apresentar a “crise” da música modernista[3] e comentar que Mignone oferece resoluções muito bem sucedidas para as questões postas em seu tempo.
Desta maneira, Mário de Andrade entra numa questão ainda mais densa sobre o folclore. Adquire um tom de crítica severa pelo “abuso do folclorismo” na linguagem musical, na busca por uma legitimação da arte nacional. O musicólogo afirma que “ Não há dúvida que o folclore, útil um tempo como bandeira de combate, útil toda a vida como elemento de estudo e experiência, tem de ser superado como base de criação”. P340. Destaco este trecho pois, apresenta uma afirmação primordial para a concepção de Mário de Andrade sobre o folclore em 1942. Noto a transitoriedade e a transformação da maneira com que o escritor trata a categoria. Pela frase destacada, consigo analisar retrospectivamente que ao ser uma “bandeira de combate”, voltamos às primeiras décadas do século XX. A luta pelo nacionalismo se encontra numa primeira etapa, vastamente discutida no Ensaio sobre a música brasileira de 1928.  Em 42, Mário de Andrade mostra em sua maturidade que o que foi uma bandeira de militância nacionalista, deve passar agora a um substrato de pesquisa, mas que deve ser contemplado com as devidas restrições para que a composição musical não fique amplamente amparada pelos matérias melódicos do folclore.  Nesse sentido afirma que “É preciso abandonar o folclorismo, porém, por outro lado é preciso não cair num qualquer internacionalismo turístico sem significação funcional.” P. 341.
Portanto, o folclore não é mais o elemento fundamental para a nacionalização da musica.[4] As características que antes se faziam necessárias na busca por uma arte independente – uso de melodias de cantigas de roda, por exemplo – já não devem ser a tônica pela qual busca o compositor. O individualismo , condição fundamental desta “nova etapa”, deve estar a serviço de um caráter nacionalizador da música. A busca por uma autonomia estética que não se funda aos nacionalismos ou folclorismo das demais nações, mas a independência que confira uma funcionalidade artística nacional para a música brasileira. Os novos questionamentos propostos por Mário de Andrade neste artigo, suscitam uma nova etapa da música americana, quando deflagra a “independência” da criação musical em relação ao folclore.  
Em “Histórias Musicais”, o autor comenta a incipiente produção bibliográfica brasileira, tendo como base a temática proposta. Destaco no entanto, um trecho emblemático no qual Mário de Andrade busca relacionar as manifestações artísticas a uma perspectiva sociológica. Propõe assim uma história da música que “fosse vazada nos princípios e métodos da socióloga contemporânea, e que ao mesmo tempo se acompanhasse de uma crítica de interesse social”. P348. Essa preocupação de Mário de Andrade é justificada posteriormente ao acusar o papel diletante, individualista e nitidamente burguês que a historiografia da arte desempenhou ao enaltecer “gênios individuais” e apagar a funcionalidade artística. Vejamos :

“Talvez a historiografia artística que sempre veio tratando só quase que de obras e autores, tenha sido uma auxiliar poderosa da inflação de individualismos que desnorteia tão absurdamente as belas artes atuais. Com efeito, de tal forma a historiografia artística ignora a funcionalidade anônima da obra de arte(...) A historiografia deve ter seu pedaço de culpa nessa traição desumana com que a arte hoje se tornou um bicho de sete cabeças, um mistério de iniciados.”P.350

Mário de Andrade é enfático ao criticar uma perspectiva iluminista “burguesa” que buscou enaltecer os progressos artísticos individualistas, que são categorizados como “gênios”, que produzem uma arte de alto teor de erudição, longe da possibilidade de assimilação de uma diversa gama das camadas sociais, em detrimento da arte anônima, que se objetivou numa funcionalidade prática, não na objetivação subjetiva em si da arte burguesa.
Destarte, noto a tônica do caráter social que os artigos de Mário de Andrade assumem nessa fase posterior a 1938.  Tendo passado por diversas experiências traumáticas em embates políticos, a frustração política no Departamento de Cultura, a perseguição à Missão de Pesquisas folclóricas determinada pelo varguista e sobretudo uma nova anunciação de guerra, apontam na vivência concreta de Mário de Andrade uma feição de caráter cada vez mais popular para as determinações artísticas. Sua crítica geral ao sistema capitalista ganha força a medida que vê as tensões entre as nações culminarem na guerra.  A costumeira crítica ao individualismo é sempre atrelada a uma perspectiva de ego e nunca uma funcionalidade social. Nesse sentido é que escreve o texto “ A expressão musical dos Estados Unidos” no qual faz uma interessante discussão para o desenvolvimento artístico do país. Atribui a uma importância cooperativista das missões sulistas tanto quanto a perspectiva de povoamento e fixação territorial que nos mostram por meio das diversas mediações sociais, o porque de um desenvolvimento musical histórico, culminando na atualidade de sua escrita num rico e plural cenário musical. Onde atuam diversas orquestras, compositores em plena atividade e o “associativismo” corporativista de índole norte américa que contribui em larga escala e fundamentalmente importante para a existência de um cenário musical. Vê na possibilidade de associação com a iniciativa privada uma oportunidade de se concretizar no plano real, uma produção musical autoral e diversificada. Ao concluir o texto da conferência, destaco a percepção de que “ arte não consiste em só criar obras-de-arte. Arte não se resumo a altares raros de criadores genialíssimos (...). A arte é muito mais larga, humana e generosa do que a idolatria dos gênios incondicionais. Ela é principalmente comum. Na américa do norte, a música se apresenta em nossos dias numa conceituação renovada de arte, que desde muito se perdera na Europa; força social de primeira ordem(...)” P. 403
A riqueza do livro “Música, doce música” esta na plural abordagem de seus artigos durante uma vasta trajetória histórica.  Minha percepção, de que Mário de Andrade esta fortemente conectado com os acontecimentos de seu tempo, é atribuída a preocupação latente com que o autor se utiliza do campo estético não como um fim, mas sempre como um meio, em constante relação com a vida real, para que assim se tivesse um fim – uma obra de arte funcional para a sociedade. A gênese de seu pensamento crítico esta ancorada em dois pressupostos fortemente antagônicos – Cristianismo e marxismo[5]- mas que por meio de um processo de síntese, busca realçar soluções “salvadoras”[6] para necessidades reais, atribuídas a realidade humana. É portanto, intensificando a sua crítica no aparato real, nas tensões e mediações das lutas sócias que Mário de Andrade justifica a necessidade de uma arte funcional, que atenda a demanda humana e não a classe burguesa. Um projeto artístico urdido nas necessidades onto-imanentes da sociedade brasileira, em sua forma plural de diversas culturas, conferindo um “ethos” nacional, maior do que qualquer unanimidade individualista.



[1] Referências como “ A atualidade de Chopin”, “ Romantismo musical” , “ Artista e o artesão” In. O baile das quatro artes. Também em “Evolução social da música”, “Cultura musical” In. Aspectos da música brasileira.
[2] Lukács afirma - Nem a ciência, nem os seus diversos ramos, nem a arte, possuem uma história autônoma imanente, que resulta exclusivamente da sua dialética interior*. A evolução em todos esses campos é determinada pelo curso de toda a história da produção social, em seu conjunto; e só com base neste curso é podem ser esclarecidos de maneira verdadeiramente científica os desenvolvimentos e as transformações que ocorrem em cada campo singularmente considerado. P. 12 – Cultura, arte e literatura. Textos escolhidos.
*a dialética interior que produz os saltos ontológicos, só se faz compreendida na relação sociometabólica. Ou seja, indivíduos atuando em suas perspectivas matérias de produção/trabalho.
[3] “E essa é a razão da guerra contra a melodia de toda a música “modernista” de agora. Incapazes, dentro das leis morais, de criar cantos novos com a mesma grandeza de um Beethoven ou César Franck, os músicos se refugiam na orquestração, na harmonização, nos atonalismos, no embate das polifonias.” P338 – Música, doce música.
[4] O que é a nacionalização da música para Mário de Andrade ?
[5] Ver livro Ramais e Caminhos – Têle Ancona Lopez.
[6] O artista que deve sacrificar o individual para fruir sua arte numa estética funcional e social.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Interlúdio

Omnização - ação que torna homens e mulheres ,de fato, humanos. Sua autoprodução por meio do trabalho confere, a si mesmo, seu principal atributo socio-metabólico que os diferencia dos outros animais. Portanto, a essência humana é o trabalho. Trabalho este que quando cooptado numa sociedade capitalista, é conduzido por uma forma alienada e estranhada de existência. Alienada pois, homens e mulheres não detém os meios de produção para que lhe são necessários para exercer o seu trabalho. Produzem, mas não detém aquilo que produz. Seu trabalho é suprimido pelo produto final ( trabalho morto) que se torna uma entidade autônoma com um determinado valor de troca que só poderá ser adquirido pela troca entre as poucas horas remuneradas pelo seu trabalho, devolvendo-as para as fontes primárias da expropriação e exploração, o capitalista.
Estranhada por não identificar no produto final, o seu trabalho, portanto a si mesmo. Transfere aquilo que é seu, humano, produto de sua ominização, para uma entidade material, sem vida, porém fruto de sua criação. Estranhamento, no entanto, se aplica as condições genéricas da vida humana, não necessariamente atreladas ao ponto de vista das relações econômicas.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Glosas


Entro agora na série Música de Coração. Série composta pelos seguintes artigos:
·         Marcelo Tupinambá 1924
·         Ernesto Nazaré 1926
·         Padre José Maurício 1930
·         Vila Lobos versus Vila Lobos (I a VII) 1930
·         Henrique Oswald (Obras sinfônicas) 1929
·         Henrique Oswald 1929
·         Luciano Gallet: Canões Brasileiras 1927
·         Lourenço Fernandez ( Sonatina) 1931
·         Camargo Guarnieri ( Sonatina) 1929
·         J.A. Ferreira Prestes 1931
·         Germana Bittencour 1931

Como homem de seu tempo, Mário de Andrade nessa série busca fazer reflexões contemplando questões que permeiam seu projeto de nacionalismo. No âmbito da História da Música, compõe uma narrativa muito saborosa sobre em Padre José Maurício.  O texto que apresenta características de crônica, além de cumprir uma função interessada no sentido de conferir historicidade na trajetória de vida do Padre José Maurício adequando-a ao processo de vinda da família real portuguesa, sua lida na vida, positivada pelo desenvolvimento seu trabalho, tem caráter de crítica ao deflagrar a falta de organização e documentação relativos a história dos músicos no Brasil. Veja, por exemplo:

Os chefes e muitas nações, entre as quais prima o Brasil, esquecem com facilidade quem os nobilita. Faz um século que o padre-mestre morreu. Pelos carinhos isolados de alguns escritores e um músico, lhe sabemos superficialmente a vida, possuímos dele, impressas, a Missa de Réquiem e a em Si Bemol. Nada mais. Os pormenores da vida, como os restos mortais do músico já não é possível mais sabê-los. As obras, na maioria estão perdidas. O que resta são cópias, detestáveis às vezes, como as que possui o Conservatório daqui. P.131

 Outra característica marcante desta sessão é notar que os compositores contemplados para os artigos, são todos vivos no momento em que os artigos são publicados. Noto, portanto, a importância que Mário de Andrade impute aos artigos na esperança de sensibilizar por meio do comentário crítico, sempre pautado no exame atencioso e criterioso do material musical. Sua abordagem é feita de forma concreta, ora por meio de uma única audição, ora pelo estudo detalhado da partitura. Tem em vista que, empreender esforços para a crítica musical destinada aos periódicos, nos quais veiculam as suas colunas, significa escrever de forma ligeira, fácil e de rápida compreensão. Devo a essa afirmação à comparação de textos dos artigos aqui presentes frente aos textos mais técnicos como o Ensaio sobre a música brasileira, bem como o livro Aspectos da música brasileira[1]. Isso não o proíbe de deferir comentários sobre o eixo artístico mais amplo, nem tampouco comentar sua percepção de arte nacional. Observe:
Faz muitos anos que, escutando amorosamente o despontar da consciência nacional, cheguei à conclusão de que si esta alguma vez já se manifestou com eficiente na arte, unicamente o fez pela música. Nós podemos afirmar que existe hoje música brasileira, a qual, como tudo que é realmente nativo, nasceu, formou-se e adquiriu suas qualidades raciais no seio do povo inconsciente. A arte musical brasileira, si a tivermos um dia, de maneira a poder chamar-se escola, terá inevitavelmente de auscultar as palpitações rítmicas e ouvir os suspiros melódicos do povo, para ser nacional e por consequência ter direito de vida independente no universo. Porque o direito de vida universal só se adquire partindo do particular para o geral, da raça para a humanidade, conservando aquela suas características próprias, que são o contingente com que enriquece a consciência humana. P115.

O problema do particular é apontado por Lukács como que “constituiu o ponto central organizador do processo de criação estética, ainda que em suas consequências ultrapasse os quadros do exame gnosiológico, revela-nos porém, ao mesmo tempo, os trações específicos essenciais do reflexo estético da realidade”. P.181[2]
A realidade estética como meio de manifestação orgânica da práxis artística, manifesta-se para Mário por meio de análise concreta dos compositores na sua autoprodução. Elabora dois artigos que enaltece a figura de dois compositores que “ de grande valor músico, tornaram-se notáveis na construção dela (da música)”: Ernesto Nazaré e Marcelo Tupinambá. P. 115.
Assim, constato o perfil de crítico e esteta em que Mario de Andrade desenvolve nesta série de artigos. Aprofunda-se nas particularidades de cada compositor, por meio de artigos independentes, nos quais por meio de uma análise orgânica da produção musical do indivíduo, o pesquisador tece suas críticas, faz elogios e a cima de tudo, busca sensibilizar o tecido social artístico, na sua forma musical, para apreensão deste projeto de vida. Observe:

O que exalta a música de dança de Marcelo Tupinambá é a linha melódica. Muito pura e variada. O compositor encerra nela a indecisão heterogênea da nossa formação racial. Ora tem o espevitamento do quase branco das cidades, ora a melancolia do nosso interior. Às vezes é dum fatalismo desesperado, duma saudade imensamente nostálgica, que faz mal ouvir, como nesse extraordinário Matuto, canção cearense que atinge aquela tristeza dolorida de certas melodias russas. P.119

Os artigos escritos sobre Villa – Lobos atestam uma verticalização muito maior do pesquisador no que diz respeito ao compositor em relação aos demais compositores. Tece comentários que permeiam dados biográficos, críticas musicais e análise da atuação de Villa- Lobos como regente. É certo que o compositor não foi o único a se aventurar na regência musical, mas note-se a importância que Mário de Andrade dá ao “aventureiro”. A relação entre Mário de Andrade e Villa Lobos apresenta uma complexa dinâmica de sociabilidade[3]. No entanto, quero destacar algumas percepções feitas pelo musicólogo que faz investidas em comentários sobre a realidade material do músico de orquestra, na dinâmica relação de seu trabalho, por meio de uma observação de um dos ensaios Veja:
“Mas é que Vila Lobos é respeitado como merece e lida com professores de orquestra arregimentados. Aqui, infelizmente os professores de orquestra ainda não compreenderam o pouco caso que fazem deles, alguns dos que os manjam. Vivem sendo vítimas de pequenas decepções, de vaidadinhas ofendidas, e principalmente instrumentos duma porção de interesses que não são os deles. Ora, os professores de orquestra deviam pensar que se deixando levar assim na corrente das intrigas e das pretensões alheias, podem muito bem estar cavando a própria ruína. No ensaio a que assisti, a má-vontade da parte da orquestra ( má-vontade ou desleixo, o que dá na mesmoa) era manifesta.” P. 148

 A problematização que Mário de Andrade faz à respeito da realidade do músico que se objetiva na prática de sua função orquestral é complexa.[4]Não devo me estender neste aspecto no presente fichamento. Existem outros textos que adensam a problemática, abordarei em outro momento.
Em Henrique Oswald, Mário de Andrade chama atenção para um aspecto crítico da personalidade do compositor, imbuído de individualismo. Característica que o pesquisador vai atacar em todas as suas dimensões de manifestação nas mais diversas personalidades que se apresenta. Argumentação que noto em diversos dos seus textos. Para citar alguns  Ensaio sobre a música brasileira, Romantismo musical, O artista e o artesão, Cultura musical. Nesse momento destaco a seguinte passagem:
Henrique Oswald foi incontestavelmente mais completo, mais sábio, mais individualistamente inspirado que Alberto Nepomuceno, por exemplo; porém a sua função histórica não poderá jamais se comparar com a do autor da Suíte Brasileira. Eis por que eu o considerava teoricamente um inimigo. Digo mais: um inimigo que eu tinha, teoricamente , rancor. Porque reconhecendo a grande força e o grande prestígio dele, eu percebia o formidável aliado que perdíamos, todos quantos trabalhávamos pela especificação da música nacional. P. 159

A série seguinte é denominada como Música de Pancadaria.  Aqui percebo uma vertente mais politizada de Mário de Andrade. Engajado nas tensões sociais que o sensibilizam, vejo fartos momentos nos quais o autor apossa seu “punhal” e trava diversas brigas por meio da imprensa. Os artigos desta sessão datam de 1927 à 1932, sendo eles :
·          Contra as Temporadas Líricas ( I a VII) 1928
·         P.R.A.E ( I a V) 1931
·         Luta pelo Sinfonismo ( I a XIV) 1930 à 1931
·         Contra os Comerciantes de Música ( I a VI) 1929
·         O “Bolero” de Ravel 1930
·         O Pai de Xenia 1927
·         Amadorismo Profissional 1929
·         O Ditador e a Música 1932
Ao fazer uma leitura mais apurada sobre os temas dos artigos, percebo que tratam de questões postas em prova por meio do próprio Mário de Andrade. Aqui noto o perfil de crítico jornalista mais apurado. Seguindo uma tendência que se mostra pelo trajeto de sua vida “jornalística”, observo retrospectivamente que o gérmen da inconformidade nas questões sociais começou a ficar latente e adquirir certo caráter panfletário nos artigos jornalísticos que não travam diálogo com manifestações artísticas do ponto de vista estético. Trazendo uma análise mais verticalizada para uma realidade material concreta, despindo os véus das redes de sociabilidades dos grandes mecenatos, do poder público, aqui Mário de Andrade remonta as estruturas sociais que atuam sob o espectro artístico na mais variadas funções. Vejo, por exemplo em Traviata, Leocavallo e Cia (Campanha contra as temporadas líricas). Criticando o caráter efêmero com que se constroem as temporadas líricas em São Paulo, destinadas sempre a curta duração e executando sempre os mesmo repertórios, o crítico demonstra de uma forma geral, de quem são os interesses e para quem são realizados tais temporadas. Note:
“(...) O povo não irá. Uma entrada de galinheiro custa caro demais (...). A burguesia, essa irá uma vez, si for, pouco se lhe dando conhecer o Dão João de Mozart. A aristocracia ( financeira) da cidade, si fizerem boa propaganda de chiquismo em torno da temporada, essa irá, dirá uma porção de bobagens, vestirá lindos vestidos e mastigará com delicadezas, boca fechada, e perfeito conhecimento do uso do garfo, caras e bem regadas ceias depois do espetáculo. Haverá, eu sei, um ou otrou, uns quinze desgraçados de artistas, que vivem sonhando escutar essas coisas. Esses, nem que suprimam um mês de janta, irão ouvir as óperas. E haverá finalmente os professores de orquestra, arrebanhados aqui, os quase pela rapidez dos ensaios, pela heterogeneidade do ajuntamento, etc., não poderão nos dar execuções boas”. P.193

  Veja que num breve parágrafo, Mário de Andrade nos da um panorama, mesmo que sucinto, do complexo espaço de sociabilidade que é o espectro artístico, mais precisamente no Teatro Municipal de São Paulo. É exatamente nesse caminho que o ensaísta desenvolve a série de críticas Luta pelo Sinfonismo nas quais tece longa argumentação sobre o perfil das duas sociedades (orquestrais) que dominam o mercado musical brasileiro.  Aqui, a leitura me permitiu constatar uma série de questões desenvolvidas no bojo das apresentações musicais manifestas por Mário de Andrade. Uma grande esfera de questionamentos urde na lida orgânica com a problemática não só dos artistas, mas com os empreendimentos que não só tem como função a realização das obras musicais bem como são responsáveis, segundo Mário, pela cultura musical paulista de uma forma mais ampla. É claro que questões permeadas pela técnica, acessibilidade financeira e condições de trabalho são bem trabalhadas nesta série de críticas. Noto, como as associações e conluios capitalistas inquietam o crítico, principalmente por levarem sempre a primeira ordem o interesse do enriquecimento capitalista na execução de tais obras.
Assim, ao adentrar o comentário estético das obras musicais[5], o musicólogo faz questão de tecer crítica às obras musicais que parecem favorecer o “conluio” capitalista, atuando de forma a exercer a abstração do real, buscar meramente o gozo fácil e impressionar com o objetivo do enriquecimento por meio da bilheteria. Ao ler O “Bolero” de Ravel, consegui notar essa crítica acentuada à virtuosidade que esta sempre em pagar tributos a uma burguesia intelectualmente leviana. Seguindo no mesmo perfil de crítica, noto a convergência da problematização que Mário de Andrade busca trazer nos artigos O pai de Xênia em Amadorismo musical. Mergulhado nas questões sociais enlaçadas nas égides econômicas, o intelectual busca analisar o espectro do Pianismo[6] na qual se configura a realidade musical paulista. A virtuosidade pianista se desvela muito mais por uma condição do espectro burguês do que uma euforia técnica instrumentista. Sendo esta uma condição imposta pela primeira e não o contrário. Vejamos, a busca por um padrão de vida material mimetizado com o que se esperava ser uma elite europeia, fazia com que parte considerável das casas burguesas tivessem piano. Assim, as condições materiais favoreciam o aprendizado do instrumento e, por conseguinte, algo que se tornaria um ofício, antes não projetado, sendo sumariamente um acontecimento quase ao acaso. Positivado pela prática orgânica, mas muito menos no sentido do planejamento de se tornar artistas, a prática musical adquire sentido diverso que não só a formação artística.



[1] Títulos que abordam a música no espectro onto-imanente.
[2] Georg Lukács . Introdução a uma estética marxista. Destaco contudo como o filósofo aponta para a questão imanente do problema do geral ao particular. “ As relações entre a universalidade, a particuladade e a singularidade constituem, naturalmente , um antiguíssimo problema do pensamento humano. Se não distinguirmos, pelo menos em certa medida, essas categorias, se não as delimitarmos reciprocamente e não adquirirmos certo conhecimento da mútuta superação de uma na outra, ser-nos-á impossível orientarmo-nos na realidade, ser-nos-á impossível uma práxis, mesmo no sentido mais cotidiano da palavra ”.P 5.
 Sobre a questão do universal, particular e singular ver também Karl Marx- Contribuição à crítica da economia política.
[3] Ver o livro de Flávia Toni – Mario de Andrade e Villa- Lobos. Aqui, um estudo aprofundado dessas tensões e arrefecimentos de ego dos dois personagens ao longo de suas respectivas trajetórias, tomando como base as correspondências e artigos de imprensa.
[4] Ver ensaio Evolução Social da Música- Mário de Andrade
[5] O que é o sentido nacional na música, nas obras de artes para Mário de Andrade?
[6] Ver Klaxon 6