A última série de artigos contida
no texto denominada de “Novos artigos”
é fruto de um trabalho arqueológico de Oneyda Alvarenga. Publicados após a morte
de M.A, os novos artigos foram coletados no próprio acervo do autor. Haviam
sido separados enquanto recortes de jornais e alguns ainda por publicar. O
trabalho de Oneyda foi validar por meio da concepção dos artigos já existentes
em Música, doce música, para posteriormente publica-los em edições póstumas.
São 24 artigos no total. A série como um todo apresenta uma clara mudança no
eixo crítico de Mário de Andrade. Não se trata de uma ruptura ideológica com o
passado, mas observo que cruzando as datas de produção destes artigos, com
outros textos de perfil parecido[1],
noto uma expressão mais acaba de uma série de categorias presentes no
pensamento de Mário de Andrade, algo que será determinante até o fim de sua
vida.
Os artigos que integram a última
série do livro são :
·
As Bachianas 1938
·
Música Popular 1939
·
Música Nacional 1939
·
Quarto de tom 1939
·
Nacionalismo musical 1939
·
Laforgue e Satie 1939
·
Sonoras Crianças 1939
·
Francisco Mignone 1939
·
Teutos mas músicos 1939
·
Ernesto Nazareth 1940
·
Camargo Guarnieri 1940
·
Chiquinha Gonzaga 1940
·
Paganini 1940
·
A modinha e Lalo 1941
·
O desnivelamento da Modinha 1941
·
O espantalho 1942
·
Música brasileira 1942
·
Histórias musicais 1942
·
Distanciamentos e aproximações 1942
·
São Contos de Guerra 1944
·
Romain Rollando, músico 1944
·
Chopin 1944
·
Oferta musical S. D.
·
Hino às Nações Unidas S. D
Acho muito significativo poder,
por meio de uma leitura comparativa, notar que os artigos da última série são
precedidos de uma lacuna de seis anos em relação à série anterior. Plenamente
explicado pelas condições de confecção das edições posteriores. A ideia acaba
que Mário de Andrade tinha de seu livro “Música, doce música” é expressa até a
série “Música de pancadaria”. Por ocasião da publicação de sua obra integral
pela editora Martins, o musicólogo deixa em seu material de trabalho indicações
anexar artigos para a grande coleção, mas que não chega a concluir em vida. Portanto,
a série “Artigos novos” nos mostra uma expressão muito madura do que Mário de
Andrade parecia acreditar dos “problemas sociais da música”. Empenhado em
discutir o caso, os artigos adquirem um teor severamente mais crítico e
acompanhando a maturidade do escritos, muito mais dedicado a verticalizar-se
nas questões sociais no geral. Não exclui no entanto a percepção de musicólogo
e esteta, quando dos artigos que abordam uma crítica estética de música. É o
caso de “As bachianas” quando Mário de Andrade esta preocupado em discutir a
concepção da incipiente série de músicas que Villa-Lobos. Problematiza a
fundamentação teórica de Villa-Lobos, afirmando que a herança bachiana é muito
mais um fruto da condição “caótica da musica nacional” do que atribuir-lhe uma
significância de uma ordem “erudita”. Vejamos:
“Não há, pois,
nada de mais que apareçam em Bach coincidências com a música popular
brasileira. Duas delas são facilmente explicáveis. Bach foi um “syncopated”.
Principalmente nas suas fugas, em que é visível a precisão desagradável que lhe
causava a inflexibilidade do compasso, as síncopas são bastante numerosas. Nas
melodias brasileiras também as síncopas são numerosas, surgindo daí uma
analogia espontânea, mais propriamente técnica, aliás, que sonora. Por outro
lado, Bacu usa constantemente, nas peças de andamento rápido, o processo de movimento
perpétuo, muito frequente nas tocas do seu século, em que se repete
sistematicamente só um valor sonoro, no geral a semicolcheia. Isso é também frequentíssimo
em nossas cantigas e danças de fundo africano, chegou mesmo a caracterizar o
lundu popular oitocentista, e deu base rítmica na nossa atual embolada”. P.263
Percebo que para Mário de Andrade,
a relação “bachiana” de que Villa-Lobos esta preocupado em fruir em sua música,
é muito mais um resultado de um processo histórico herdado, pelas condições
gerais de uma intensa submissão à cultura europeia de uma forma geral. Não
existe para o musicólogo originalidade ao conceber Bach em música brasileira.
Posto que o próprio autor afirma que tecnicamente, as características musicais
em sua imanência, isolados de seus processos sociometabólicos, não podem
significar originalidade.[2]
Assim, ainda na perspectiva crítica
da concepção de musica brasileira que visa empreender em seu projeto
nacionalista, Mário de Andrade escreve “O espantalho” artigo que comenta obras
e a admiração que tem por Francisco Mignone.
Também traz para discussão questões que da problemática composicional
que enxerga na crise “musical” dos modernistas. Para além de breves
apontamentos, Mário de Andrade aponta que a crise musical dos modernistas esta
muito mais em não saber trabalhar de forma inovadora, sendo reduzidos sempre as
estros românticos que herdam de seus ancestrais. A ancestralidade musical
parece assombrar as criações modernas. Tais apontamentos fazem-no enxergar em
Francisco Mignone “não apenas o maior sinfonista brasileiro, mas um dos maiores
instrumentadores que conheço” P.338. Esse comentário surge após Mário de
Andrade apresentar a “crise” da música modernista[3]
e comentar que Mignone oferece resoluções muito bem sucedidas para as questões
postas em seu tempo.
Desta maneira, Mário de Andrade
entra numa questão ainda mais densa sobre o folclore. Adquire um tom de crítica
severa pelo “abuso do folclorismo” na linguagem musical, na busca por uma
legitimação da arte nacional. O musicólogo afirma que “ Não há dúvida que o folclore, útil um tempo como bandeira de
combate, útil toda a vida como elemento de estudo e experiência, tem de ser
superado como base de criação”. P340. Destaco este trecho pois, apresenta
uma afirmação primordial para a concepção de Mário de Andrade sobre o folclore
em 1942. Noto a transitoriedade e a transformação da maneira com que o escritor
trata a categoria. Pela frase destacada, consigo analisar retrospectivamente
que ao ser uma “bandeira de combate”, voltamos às primeiras décadas do século
XX. A luta pelo nacionalismo se encontra numa primeira etapa, vastamente
discutida no Ensaio sobre a música brasileira de 1928. Em 42, Mário de Andrade mostra em sua
maturidade que o que foi uma bandeira de militância nacionalista, deve passar
agora a um substrato de pesquisa, mas que deve ser contemplado com as devidas
restrições para que a composição musical não fique amplamente amparada pelos matérias
melódicos do folclore. Nesse sentido
afirma que “É preciso abandonar o folclorismo,
porém, por outro lado é preciso não cair num qualquer internacionalismo turístico
sem significação funcional.” P. 341.
Portanto, o folclore não é mais o
elemento fundamental para a nacionalização
da musica.[4]
As características que antes se faziam necessárias na busca por uma arte
independente – uso de melodias de cantigas de roda, por exemplo – já não devem
ser a tônica pela qual busca o compositor. O individualismo , condição
fundamental desta “nova etapa”, deve estar a serviço de um caráter
nacionalizador da música. A busca por uma autonomia estética que não se funda
aos nacionalismos ou folclorismo das demais nações, mas a independência que confira uma funcionalidade artística nacional
para a música brasileira. Os novos questionamentos propostos por Mário de
Andrade neste artigo, suscitam uma nova etapa da música americana, quando
deflagra a “independência” da criação musical em relação ao folclore.
Em “Histórias Musicais”, o autor
comenta a incipiente produção bibliográfica brasileira, tendo como base a
temática proposta. Destaco no entanto, um trecho emblemático no qual Mário de
Andrade busca relacionar as manifestações artísticas a uma perspectiva
sociológica. Propõe assim uma história da música que “fosse vazada nos
princípios e métodos da socióloga contemporânea, e que ao mesmo tempo se
acompanhasse de uma crítica de interesse social”. P348. Essa preocupação de
Mário de Andrade é justificada posteriormente ao acusar o papel diletante,
individualista e nitidamente burguês que a historiografia da arte desempenhou
ao enaltecer “gênios individuais” e apagar a funcionalidade artística. Vejamos
:
“Talvez a historiografia
artística que sempre veio tratando só quase que de obras e autores, tenha sido
uma auxiliar poderosa da inflação de
individualismos que desnorteia tão absurdamente as belas artes atuais. Com
efeito, de tal forma a historiografia artística ignora a funcionalidade anônima da obra de arte(...) A historiografia deve
ter seu pedaço de culpa nessa traição desumana com que a arte hoje se tornou um
bicho de sete cabeças, um mistério de iniciados.”P.350
Mário de Andrade é enfático ao criticar
uma perspectiva iluminista “burguesa” que buscou enaltecer os progressos
artísticos individualistas, que são categorizados como “gênios”, que produzem
uma arte de alto teor de erudição, longe da possibilidade de assimilação de uma
diversa gama das camadas sociais, em detrimento da arte anônima, que se objetivou
numa funcionalidade prática, não na objetivação subjetiva em si da arte burguesa.
Destarte, noto a tônica do caráter
social que os artigos de Mário de Andrade assumem nessa fase posterior a
1938. Tendo passado por diversas experiências
traumáticas em embates políticos, a frustração política no Departamento de
Cultura, a perseguição à Missão de Pesquisas folclóricas determinada pelo
varguista e sobretudo uma nova anunciação de guerra, apontam na vivência
concreta de Mário de Andrade uma feição de caráter cada vez mais popular para
as determinações artísticas. Sua crítica geral ao sistema capitalista ganha
força a medida que vê as tensões entre as nações culminarem na guerra. A costumeira crítica ao individualismo é
sempre atrelada a uma perspectiva de ego e nunca uma funcionalidade social.
Nesse sentido é que escreve o texto “ A
expressão musical dos Estados Unidos” no qual faz uma interessante
discussão para o desenvolvimento artístico do país. Atribui a uma importância
cooperativista das missões sulistas tanto quanto a perspectiva de povoamento e
fixação territorial que nos mostram por meio das diversas mediações sociais, o
porque de um desenvolvimento musical histórico, culminando na atualidade de sua
escrita num rico e plural cenário musical. Onde atuam diversas orquestras,
compositores em plena atividade e o “associativismo” corporativista de índole norte
américa que contribui em larga escala e fundamentalmente importante para a
existência de um cenário musical. Vê na possibilidade de associação com a
iniciativa privada uma oportunidade de se concretizar no plano real, uma
produção musical autoral e diversificada. Ao concluir o texto da conferência,
destaco a percepção de que “ arte não consiste em só criar obras-de-arte. Arte
não se resumo a altares raros de criadores genialíssimos (...). A arte é muito
mais larga, humana e generosa do que a idolatria dos gênios incondicionais. Ela é principalmente comum. Na américa
do norte, a música se apresenta em nossos dias numa conceituação renovada de
arte, que desde muito se perdera na Europa; força social de primeira ordem(...)” P. 403
A riqueza do livro “Música, doce
música” esta na plural abordagem de seus artigos durante uma vasta trajetória
histórica. Minha percepção, de que Mário
de Andrade esta fortemente conectado com os acontecimentos de seu tempo, é atribuída
a preocupação latente com que o autor se utiliza do campo estético não como um
fim, mas sempre como um meio, em constante relação com a vida real, para que
assim se tivesse um fim – uma obra de arte funcional para a sociedade. A gênese
de seu pensamento crítico esta ancorada em dois pressupostos fortemente
antagônicos – Cristianismo e marxismo[5]-
mas que por meio de um processo de síntese, busca realçar soluções “salvadoras”[6]
para necessidades reais, atribuídas a realidade humana. É portanto,
intensificando a sua crítica no aparato real, nas tensões e mediações das lutas
sócias que Mário de Andrade justifica a necessidade de uma arte funcional, que
atenda a demanda humana e não a classe burguesa. Um projeto artístico urdido
nas necessidades onto-imanentes da sociedade brasileira, em sua forma plural de
diversas culturas, conferindo um “ethos” nacional, maior do que qualquer
unanimidade individualista.
[1] Referências
como “ A atualidade de Chopin”, “ Romantismo musical” , “ Artista e o artesão”
In. O baile das quatro artes. Também em “Evolução social da música”, “Cultura
musical” In. Aspectos da música brasileira.
[2]
Lukács afirma - Nem a ciência, nem os seus diversos ramos, nem a arte, possuem
uma história autônoma imanente, que
resulta exclusivamente da sua dialética
interior*. A evolução em todos esses campos é determinada pelo curso de
toda a história da produção social, em seu conjunto; e só com base neste curso
é podem ser esclarecidos de maneira verdadeiramente científica os
desenvolvimentos e as transformações que ocorrem em cada campo singularmente
considerado. P. 12 – Cultura, arte e literatura. Textos escolhidos.
*a dialética interior que produz os saltos
ontológicos, só se faz compreendida na relação sociometabólica. Ou seja, indivíduos
atuando em suas perspectivas matérias de produção/trabalho.
[3] “E
essa é a razão da guerra contra a melodia de toda a música “modernista” de
agora. Incapazes, dentro das leis morais, de criar cantos novos com a mesma
grandeza de um Beethoven ou César Franck, os músicos se refugiam na orquestração, na harmonização, nos
atonalismos, no embate das polifonias.” P338 – Música, doce música.
[4] O que
é a nacionalização da música para Mário de Andrade ?
[5] Ver
livro Ramais e Caminhos – Têle Ancona Lopez.
[6] O artista
que deve sacrificar o individual para fruir sua arte numa estética funcional e
social.
Nenhum comentário:
Postar um comentário