segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Glosas - Parte final

A última série de artigos contida no texto denominada de “Novos artigos” é fruto de um trabalho arqueológico de Oneyda Alvarenga. Publicados após a morte de M.A, os novos artigos foram coletados no próprio acervo do autor. Haviam sido separados enquanto recortes de jornais e alguns ainda por publicar. O trabalho de Oneyda foi validar por meio da concepção dos artigos já existentes em Música, doce música, para posteriormente publica-los em edições póstumas. São 24 artigos no total. A série como um todo apresenta uma clara mudança no eixo crítico de Mário de Andrade. Não se trata de uma ruptura ideológica com o passado, mas observo que cruzando as datas de produção destes artigos, com outros textos de perfil parecido[1], noto uma expressão mais acaba de uma série de categorias presentes no pensamento de Mário de Andrade, algo que será determinante até o fim de sua vida.
Os artigos que integram a última série do livro são :
·         As Bachianas 1938
·         Música Popular 1939
·         Música Nacional 1939
·         Quarto de tom 1939
·         Nacionalismo musical 1939
·         Laforgue e Satie 1939
·         Sonoras Crianças 1939
·         Francisco Mignone 1939
·         Teutos mas músicos 1939
·         Ernesto Nazareth 1940
·         Camargo Guarnieri 1940
·         Chiquinha Gonzaga 1940
·         Paganini 1940
·         A modinha e Lalo 1941
·         O desnivelamento da Modinha 1941
·         O espantalho 1942
·         Música brasileira 1942
·         Histórias musicais 1942
·         Distanciamentos e aproximações 1942
·         São Contos de Guerra 1944
·         Romain Rollando, músico 1944
·         Chopin 1944
·         Oferta musical S. D.
·         Hino às Nações Unidas S. D

Acho muito significativo poder, por meio de uma leitura comparativa, notar que os artigos da última série são precedidos de uma lacuna de seis anos em relação à série anterior. Plenamente explicado pelas condições de confecção das edições posteriores. A ideia acaba que Mário de Andrade tinha de seu livro “Música, doce música” é expressa até a série “Música de pancadaria”. Por ocasião da publicação de sua obra integral pela editora Martins, o musicólogo deixa em seu material de trabalho indicações anexar artigos para a grande coleção, mas que não chega a concluir em vida. Portanto, a série “Artigos novos” nos mostra uma expressão muito madura do que Mário de Andrade parecia acreditar dos “problemas sociais da música”. Empenhado em discutir o caso, os artigos adquirem um teor severamente mais crítico e acompanhando a maturidade do escritos, muito mais dedicado a verticalizar-se nas questões sociais no geral. Não exclui no entanto a percepção de musicólogo e esteta, quando dos artigos que abordam uma crítica estética de música. É o caso de “As bachianas” quando Mário de Andrade esta preocupado em discutir a concepção da incipiente série de músicas que Villa-Lobos. Problematiza a fundamentação teórica de Villa-Lobos, afirmando que a herança bachiana é muito mais um fruto da condição “caótica da musica nacional” do que atribuir-lhe uma significância de uma ordem “erudita”. Vejamos:
“Não há, pois, nada de mais que apareçam em Bach coincidências com a música popular brasileira. Duas delas são facilmente explicáveis. Bach foi um “syncopated”. Principalmente nas suas fugas, em que é visível a precisão desagradável que lhe causava a inflexibilidade do compasso, as síncopas são bastante numerosas. Nas melodias brasileiras também as síncopas são numerosas, surgindo daí uma analogia espontânea, mais propriamente técnica, aliás, que sonora. Por outro lado, Bacu usa constantemente, nas peças de andamento rápido, o processo de movimento perpétuo, muito frequente nas tocas do seu século, em que se repete sistematicamente só um valor sonoro, no geral a semicolcheia. Isso é também frequentíssimo em nossas cantigas e danças de fundo africano, chegou mesmo a caracterizar o lundu popular oitocentista, e deu base rítmica na nossa atual embolada”. P.263

Percebo que para Mário de Andrade, a relação “bachiana” de que Villa-Lobos esta preocupado em fruir em sua música, é muito mais um resultado de um processo histórico herdado, pelas condições gerais de uma intensa submissão à cultura europeia de uma forma geral. Não existe para o musicólogo originalidade ao conceber Bach em música brasileira. Posto que o próprio autor afirma que tecnicamente, as características musicais em sua imanência, isolados de seus processos sociometabólicos, não podem significar originalidade.[2]
Assim, ainda na perspectiva crítica da concepção de musica brasileira que visa empreender em seu projeto nacionalista, Mário de Andrade escreve “O espantalho” artigo que comenta obras e a admiração que tem por Francisco Mignone.  Também traz para discussão questões que da problemática composicional que enxerga na crise “musical” dos modernistas. Para além de breves apontamentos, Mário de Andrade aponta que a crise musical dos modernistas esta muito mais em não saber trabalhar de forma inovadora, sendo reduzidos sempre as estros românticos que herdam de seus ancestrais. A ancestralidade musical parece assombrar as criações modernas. Tais apontamentos fazem-no enxergar em Francisco Mignone “não apenas o maior sinfonista brasileiro, mas um dos maiores instrumentadores que conheço” P.338. Esse comentário surge após Mário de Andrade apresentar a “crise” da música modernista[3] e comentar que Mignone oferece resoluções muito bem sucedidas para as questões postas em seu tempo.
Desta maneira, Mário de Andrade entra numa questão ainda mais densa sobre o folclore. Adquire um tom de crítica severa pelo “abuso do folclorismo” na linguagem musical, na busca por uma legitimação da arte nacional. O musicólogo afirma que “ Não há dúvida que o folclore, útil um tempo como bandeira de combate, útil toda a vida como elemento de estudo e experiência, tem de ser superado como base de criação”. P340. Destaco este trecho pois, apresenta uma afirmação primordial para a concepção de Mário de Andrade sobre o folclore em 1942. Noto a transitoriedade e a transformação da maneira com que o escritor trata a categoria. Pela frase destacada, consigo analisar retrospectivamente que ao ser uma “bandeira de combate”, voltamos às primeiras décadas do século XX. A luta pelo nacionalismo se encontra numa primeira etapa, vastamente discutida no Ensaio sobre a música brasileira de 1928.  Em 42, Mário de Andrade mostra em sua maturidade que o que foi uma bandeira de militância nacionalista, deve passar agora a um substrato de pesquisa, mas que deve ser contemplado com as devidas restrições para que a composição musical não fique amplamente amparada pelos matérias melódicos do folclore.  Nesse sentido afirma que “É preciso abandonar o folclorismo, porém, por outro lado é preciso não cair num qualquer internacionalismo turístico sem significação funcional.” P. 341.
Portanto, o folclore não é mais o elemento fundamental para a nacionalização da musica.[4] As características que antes se faziam necessárias na busca por uma arte independente – uso de melodias de cantigas de roda, por exemplo – já não devem ser a tônica pela qual busca o compositor. O individualismo , condição fundamental desta “nova etapa”, deve estar a serviço de um caráter nacionalizador da música. A busca por uma autonomia estética que não se funda aos nacionalismos ou folclorismo das demais nações, mas a independência que confira uma funcionalidade artística nacional para a música brasileira. Os novos questionamentos propostos por Mário de Andrade neste artigo, suscitam uma nova etapa da música americana, quando deflagra a “independência” da criação musical em relação ao folclore.  
Em “Histórias Musicais”, o autor comenta a incipiente produção bibliográfica brasileira, tendo como base a temática proposta. Destaco no entanto, um trecho emblemático no qual Mário de Andrade busca relacionar as manifestações artísticas a uma perspectiva sociológica. Propõe assim uma história da música que “fosse vazada nos princípios e métodos da socióloga contemporânea, e que ao mesmo tempo se acompanhasse de uma crítica de interesse social”. P348. Essa preocupação de Mário de Andrade é justificada posteriormente ao acusar o papel diletante, individualista e nitidamente burguês que a historiografia da arte desempenhou ao enaltecer “gênios individuais” e apagar a funcionalidade artística. Vejamos :

“Talvez a historiografia artística que sempre veio tratando só quase que de obras e autores, tenha sido uma auxiliar poderosa da inflação de individualismos que desnorteia tão absurdamente as belas artes atuais. Com efeito, de tal forma a historiografia artística ignora a funcionalidade anônima da obra de arte(...) A historiografia deve ter seu pedaço de culpa nessa traição desumana com que a arte hoje se tornou um bicho de sete cabeças, um mistério de iniciados.”P.350

Mário de Andrade é enfático ao criticar uma perspectiva iluminista “burguesa” que buscou enaltecer os progressos artísticos individualistas, que são categorizados como “gênios”, que produzem uma arte de alto teor de erudição, longe da possibilidade de assimilação de uma diversa gama das camadas sociais, em detrimento da arte anônima, que se objetivou numa funcionalidade prática, não na objetivação subjetiva em si da arte burguesa.
Destarte, noto a tônica do caráter social que os artigos de Mário de Andrade assumem nessa fase posterior a 1938.  Tendo passado por diversas experiências traumáticas em embates políticos, a frustração política no Departamento de Cultura, a perseguição à Missão de Pesquisas folclóricas determinada pelo varguista e sobretudo uma nova anunciação de guerra, apontam na vivência concreta de Mário de Andrade uma feição de caráter cada vez mais popular para as determinações artísticas. Sua crítica geral ao sistema capitalista ganha força a medida que vê as tensões entre as nações culminarem na guerra.  A costumeira crítica ao individualismo é sempre atrelada a uma perspectiva de ego e nunca uma funcionalidade social. Nesse sentido é que escreve o texto “ A expressão musical dos Estados Unidos” no qual faz uma interessante discussão para o desenvolvimento artístico do país. Atribui a uma importância cooperativista das missões sulistas tanto quanto a perspectiva de povoamento e fixação territorial que nos mostram por meio das diversas mediações sociais, o porque de um desenvolvimento musical histórico, culminando na atualidade de sua escrita num rico e plural cenário musical. Onde atuam diversas orquestras, compositores em plena atividade e o “associativismo” corporativista de índole norte américa que contribui em larga escala e fundamentalmente importante para a existência de um cenário musical. Vê na possibilidade de associação com a iniciativa privada uma oportunidade de se concretizar no plano real, uma produção musical autoral e diversificada. Ao concluir o texto da conferência, destaco a percepção de que “ arte não consiste em só criar obras-de-arte. Arte não se resumo a altares raros de criadores genialíssimos (...). A arte é muito mais larga, humana e generosa do que a idolatria dos gênios incondicionais. Ela é principalmente comum. Na américa do norte, a música se apresenta em nossos dias numa conceituação renovada de arte, que desde muito se perdera na Europa; força social de primeira ordem(...)” P. 403
A riqueza do livro “Música, doce música” esta na plural abordagem de seus artigos durante uma vasta trajetória histórica.  Minha percepção, de que Mário de Andrade esta fortemente conectado com os acontecimentos de seu tempo, é atribuída a preocupação latente com que o autor se utiliza do campo estético não como um fim, mas sempre como um meio, em constante relação com a vida real, para que assim se tivesse um fim – uma obra de arte funcional para a sociedade. A gênese de seu pensamento crítico esta ancorada em dois pressupostos fortemente antagônicos – Cristianismo e marxismo[5]- mas que por meio de um processo de síntese, busca realçar soluções “salvadoras”[6] para necessidades reais, atribuídas a realidade humana. É portanto, intensificando a sua crítica no aparato real, nas tensões e mediações das lutas sócias que Mário de Andrade justifica a necessidade de uma arte funcional, que atenda a demanda humana e não a classe burguesa. Um projeto artístico urdido nas necessidades onto-imanentes da sociedade brasileira, em sua forma plural de diversas culturas, conferindo um “ethos” nacional, maior do que qualquer unanimidade individualista.



[1] Referências como “ A atualidade de Chopin”, “ Romantismo musical” , “ Artista e o artesão” In. O baile das quatro artes. Também em “Evolução social da música”, “Cultura musical” In. Aspectos da música brasileira.
[2] Lukács afirma - Nem a ciência, nem os seus diversos ramos, nem a arte, possuem uma história autônoma imanente, que resulta exclusivamente da sua dialética interior*. A evolução em todos esses campos é determinada pelo curso de toda a história da produção social, em seu conjunto; e só com base neste curso é podem ser esclarecidos de maneira verdadeiramente científica os desenvolvimentos e as transformações que ocorrem em cada campo singularmente considerado. P. 12 – Cultura, arte e literatura. Textos escolhidos.
*a dialética interior que produz os saltos ontológicos, só se faz compreendida na relação sociometabólica. Ou seja, indivíduos atuando em suas perspectivas matérias de produção/trabalho.
[3] “E essa é a razão da guerra contra a melodia de toda a música “modernista” de agora. Incapazes, dentro das leis morais, de criar cantos novos com a mesma grandeza de um Beethoven ou César Franck, os músicos se refugiam na orquestração, na harmonização, nos atonalismos, no embate das polifonias.” P338 – Música, doce música.
[4] O que é a nacionalização da música para Mário de Andrade ?
[5] Ver livro Ramais e Caminhos – Têle Ancona Lopez.
[6] O artista que deve sacrificar o individual para fruir sua arte numa estética funcional e social.

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